Opinião
DROGAS E TALENTO
Em 1963, o Santos jogaria contra o Milan sua segunda partida, sonhando com o título mundial de clubes. Tendo perdido a primeira, precisaria vencer para provocar a ?negra?. Sem Pelé, as perspectivas de vitória ficariam ainda mais complicadas: terminou o primeiro tempo com o placar adverso (0x2). No vestiário, o abatimento era geral. Para piorar (?), chuva torrencial ? diluviana ? desabara. Lula, o técnico (não esse, amigo de Valério e íntimo de Rose), além dos clássicos gritos de guerra (?vamos ganhar, seus f.d.p.?), teria colocado à disposição uma bandeja repleta de comprimidos, ?para espantar o frio?. Consta que alguns jogadores teriam enchido a mão e engolido de um só gole. Almir Pernambucano (substituto de Pelé) teria sido um deles. O Santos virou o jogo, vencendo por 4 a 2. Herói da partida, ?Pernambuquinho? simbolizaria a raça com gol histórico: caído de exaustão, aproveitando um rebote na pequena área, como um réptil, meteria a cabeça na bola. A anfetamina do vestiário dera-lhe aquele plus. Zizinho, titular dos escretes de 1950 e 1954, resumia o dopping no futebol: ?O cara de 40 anos se dopa e fica com a sensação de ter 20. Quando passa o efeito, parece ter 80 anos?. Fora de controle, sobretudo pela omissão do Estado na vigilância das fronteiras, não é de hoje, pois, que drogas ilícitas turbinam atletas, mesmo aqueles mais bem treinados. Com efeito, cada vez mais gente consagrada tem sido flagrada, desmoronando toda uma carreira. Às vezes, a pesquisa laboratorial é meramente formal. É suficiente comparar fotos e ver as metamorfoses físicas e psíquicas. Além da medonha musculatura, a mandíbula leonina não deixa dúvidas sobre o uso de anabolizantes. Pensadores, poetas, músicos, escritores e outros desocupados não estão imunes às tentações da química. Em tempos de crack e ectasy, o esquizofrenizante ácido lisérgico conheceu dias de glória. Freud consumia cocaína para combater dores de um câncer. Paul Sartre teria sido usuário de anfetaminas; havia pressa para concluir trabalhos. Oscar Wilde apaixonou-se pelo absinto, bebida fortíssima, que costuma levar os mais perseverantes ao inferno existencial. É inelutável. Cedo ou tarde, a droga devasta. No entanto, acerca da influência dos químicos no desempenho esportivo ou criação intelectual, um advogado do diabo costuma perguntar: sob efeito das drogas, quantos consumidores conseguem um pódio olímpico ou elaboram uma teoria psicanalítica?