Opinião
O P�O NOSSO DE CADA DIA
A principal oração do cristianismo enseja o alimento diário mais importante do mundo: o pão. Tão antigo quanto a própria existência humana na terra, o pão foi, desde o princípio, a base de qualquer cardápio, por mais simples. Acompanhado de queijo, presunto e outras iguarias, vira sanduíches, pizzas e tudo de bom. Pelo mundo afora, o pão recebe as feições culturais de cada povo, é devorado como acompanhamento de carnes, pastas e molhos. Sua feitura varia entre a artesania do forno à lenha e a tecnologia da eletricidade. Apesar do mercado oferecer máquina de fazer pão, muita gente ainda prefere botar a mão na massa. O fato é que o resultado final atinge uma imensa variedade de paladares. O Brasil se acostumou com o pãozinho francês, ora crocante, ora macio, às vezes com um brilho ligeiro, outras, crespo e encarquilhado. Mas é o pão dormido que se revela. Sua consistência, dependendo da feitura, pode chegar ao dia seguinte murcho e borrachudo, ou simplesmente manter a aparência, a consistência e o verniz. Pouca gente imagina que o pão menor, mais massudo, é superior ao fofo e quebradiço como casca de ovo. Os olhos que admiram um tipo de pão saído do forno, inda quente, dilatado e gordo, pode se decepcionar algum tempo depois, no esfriar do saco de papel. É o pão que endurece e perde totalmente o sabor. Mais ainda, é o pão que não resiste ao dia seguinte e se torna quebradiço de não sustentar na chapa, quando transformado em sanduíche. Muitos tentam criar o mesmo pão italiano, com receitas mirabolantes, e só conseguem chegar a uma massa que no dia seguinte se torna uma arma mortal, de tão duro. Desconhecem que na Itália, embora a consistência mude de acordo com a região, no outro dia ao ser cortado o pão se assemelha a um tecido esponjoso, maleável e agradável de ser degustado e, geralmente, é servido junto com uma carne, acompanhado de vinho. Por isso que pão e vinho combinam tanto. Em Portugal, o pão alentejano dispensa comentários, é cascudo, mas de massa interior tenra e saborosa. Não é, portanto, só os recheios e as coberturas aveludadas que fazem do pão um manjar. Ao contrário, o pão simples, humilde, feito por mãos grosseiras, amassado inescrupulosamente sem carinho algum, se transforma num dos principais alimentos da humanidade. O pão só se revela quando degustado puro sem mistura alguma. É quando você sente a porção exata de sal, de gordura e água sem a afetação do excesso de fermento. É quando ele transpira o deletério aroma do forno. Então, você mastiga e sente a glote se entreabrir dócil ao sabor.