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A NEVE E A SECA

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O que tem em comum a neve e a seca no Brasil? Apenas o fato de serem fenômenos climáticos periódicos, mais ou menos intensos. Os efeitos, é claro, são diversos: a neve mata de frio, a seca, de sede e de vergonha pela incapacidade secular de governos que se sucedem. Desde que dom Pedro II veio ao Sertão em 1877, passando pela criação da Inspetoria de Obras Contra as Secas em 1909, hoje DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), se fala no absurdo de se acabar com ela, algo como acabar com a neve no inverno europeu. Alguém já ouviu os alemães ou suecos querendo fazer parar de nevar? Pois é, aqui no Brasil, há anos, muitos trabalham para acabar com a seca viabilizando o tráfego de milhares de carros-pipa, a construção de barreiros e de cisternas. Bilhões de dólares já foram gastos desde 1877. O DNOCS é um órgão superado e ainda não se estabeleceu como estratégia nacional o uso de instrumentos gerenciais, que usem adequadamente os recursos financeiros, técnicos e tecnológicos que o Brasil possui. Não dá mais para ouvir falar na falta das tais políticas públicas, na ausência de planejamento e planos, na falta de vontade política ou na acomodação do sertanejo à vontade de Deus, tão conveniente para os que dominam e, também, para os que são dominados. E o que falta, então, para que se possa administrar com competência os efeitos periodicamente normais da seca no sertão nordestino? Obras estruturantes, dirão muitos com razão. Outros responderão com a tradicional solicitação de mais dinheiro à disposição de prefeitos, ?vales-seca?, alimento para o gado etc. Pedidos justos na situação de calamidade sazonal; no entanto, vorazes colaboradores da manutenção da situação de falta de solução definitiva para a falta de água, a morte de animais, para a sustentabilidade da pobreza e para o adiamento das medidas de gestão necessárias e permanentes para que se viva com a seca e seus efeitos. O tamanho do Brasil faz com que seja mais difícil para os nordestinos conseguirem conviver com a seca, como os suecos convivem com a neve; afinal, o federalismo brasileiro, embora cobre impostos da mesma forma de Norte a Sul e de Leste a Oeste, trata de forma muito diferente cada uma de suas regiões. Administrar os efeitos da seca é uma grande tarefa que só poderá ser iniciada quando o governo federal, os congressistas e todos os governadores do Nordeste se unirem para a implementação das estratégias decorrentes dos planos e planejamentos existentes, adotando o compromisso de determinar as condições gerenciais que não estejam submetidas aos interesses localizados de um ou outro político mais influente, entendendo-se que o problema da seca no Nordeste é um problema federal.

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