Opinião
UM V�U A SER DESCERRADO
Falando de Cristo, a Epístola aos Hebreus diz: ?Temos plena liberdade para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus. Ele nos abriu um caminho novo e vivo, através da cortina, quer dizer, através da Sua humanidade? (Hb 10,19-20). Que significam tais dizeres? No Templo de Jerusalém, um véu, uma cortina, separava o Santo dos Santos do restante do Santuário. Atravessando-a, o Sumo Sacerdote entrava uma vez ao ano para oferecer a Deus o sangue de uma vítima pelos pecados do povo. Tudo isto era um símbolo profético. O verdadeiro Santo dos Santos é o próprio céu. Cristo é Aquele que veio do Pai, feito homem, para levar-nos a Deus, fazendo-nos entrar no verdadeiro Santo dos Santos, conferindo o sentido último e definitivo à vida humana. O Senhor Jesus não atravessa uma cortina qualquer: a verdadeira cortina é Sua própria humanidade com tudo quanto Ele viveu de igual a nós: sonhos e projetos, momentos de alegria e de tristeza, vitórias e derrotas, esperanças e decepções, a vida pequena de cada dia, o medo do sofrimento e da morte, o amor dado e recebido, a dor da paixão e a desolação da morte... Deus escolheu o pequeno da vida humana, o corriqueiro do dia a dia, o aparentemente monótono e desprovido de maior sentido para nos dar Sua eternidade amorosa e Sua salvação. Penso na triste tragédia do Rio Grande do Sul... Perguntamos que sentido tem tudo aquilo e, mais ainda, por que Deus permite tais acontecimentos... Respostas para questões dessas não podem ser encontradas num raciocínio exato, como aqueles da matemática... Dor, sofrimento, morte, vida, amor, paixão, esperança e desespero... tudo isto está no âmbito do mistério, sentido mesmo da vida... São realidades que tocam de perto o próprio Mistério do Deus vivo e amante, providente e, ao mesmo tempo, respeitoso da liberdade humana e da dinâmica da Sua criação. Não há resposta cabal para o que aconteceu naquela boate! Podem-se averiguar causas e responsabilidades, podem-se chegar aos porquês factuais daquela tragédia... Mas, o sentido último de tudo aquilo não se explica com uma simples explicação. Os por quês podem ser respondidos; o por que, não! Olhemos Jesus, Aquele que fez de Sua aparentemente banal existência igual à nossa o caminho para o Pai. É à luz Dele, do Seu caminho, da Sua vida, da Sua morte e ressurreição, que o mundo e a nossa vida podem encontrar um sentido, que não é como a explicação para um enigma que se decifra, mas como a silenciosa intuição de um mistério que se contempla. Em Cristo, toda dor, solidão, sofrimento, aparente absurdo, morte, encontram, misteriosa e concretamente, um sentido como certo caminho de eternidade e vida: atravessando esta existência bela, desejável, tão cheia de chances e promessas, mas, ao mesmo tempo, precária e incerta, atravessamos com Jesus e por meio de Jesus, o véu, a cortina, e entramos no Santo dos Santos do coração eterno, benigno, amoroso e aconchegante, do Deus Santo a Quem Jesus nos ensinou a chamar de Pai. É esta fé no Cristo nosso Deus que nos dá a perspectiva correta para contemplar todos os acontecimentos da existência e da nossa própria vida. Quem crê, sabe do que estou falando...