Opinião
Grandeza
Marcos Davi Melo * Das comemorações após a eleição de Lula, tive a impressão de ver, talvez pela primeira vez, o povão celebrando com pertinácia a ascensão de um dos egressos de seu meio para o maior cargo da República. Parece que identificaram depois de tanto tempo um dos seus, como o que seria o seu melhor representante. A esquerda chegando ao poder, pelas urnas e com um proletário também não previsto por Marx. Pérolas do cinismo nacional, como a de Joãosinho Trinta, ?Pobre não gosta de pobreza. Quem gosta é intelectual?, foram varridas pela plebe que optou por um dos seus, para assumir a presidência, sem que necessariamente isto implique em retaliação contra os mais afortunados. O período de governo de Lula será inevitavelmente estressado e tenso. Consciente das imensas dificuldades a enfrentar no front interno, entre as quais elegeu emocionalmente o combate à fome como uma das prioridades ? embora tenha recebido acenos de aceitação e até colaboração de antigos e renhidos adversários, como o respeitado empresário Antônio Ermírio -, sabe que a oposição interna já se articula, entre a raivosa que planeja ressuscitar adormecidos projetos parlamentares do PT e a auto-intitulada responsável : uma deplorável e improdutiva, e a outra, indispensável e construtiva. Do front externo, embora tenha recebido as congratulações de praxe e os convites para visitar os mandatários do Primeiro Mundo, não terá, como já acenaram os porta-vozes dos maiores agentes econômicos, colher de chá para implementar as muitas promessas de campanha, tão necessárias quanto difíceis de efetivar nos primeiros anos de seu governo. O ortodoxo ?Financial Times? em editorial equilibrado, chegou a reconhecer que a eleição de Lula era não só sugestiva do fracasso das premissas do Consenso de Washington, quanto ameaçava a própria solidez das políticas do FMI, caso o governo recém-eleito no Brasil venha a fracassar e criar turbulências internacionais.Diante de tanto frenesi nacional e internacional, a derrota de Lula em Alagoas passa a ser uma questão de somenos importância. Só relevante para os que participaram, contribuindo para a vitória de Serra, ou não conseguindo a vitória de Luiz Inácio aqui. Nada de novo, diante das antigas estranhezas e espantos de Graciliano com a sua terra. Frente a tantas coisas bizarras que se repetem em plagas caetés, esta é apenas mais uma delas e não é de todo impossível que o presidente eleito, ao contrário do que não fez na campanha, visite Alagoas e providencie para que o Estado e seu povo não sofram nenhuma forma de revanchismo. Seria generoso e poderia elevar ainda mais um homem de origem modesta, condição normalmente desprezada pelas elites bem-nascidas, e que precisa demonstrar na prática que os seus adversários ? que sempre propalam as suas tantas limitações ? estavam errados e ele e a grande fração do povo que representa podem, sem ressentimentos, serem capazes de superiores momentos de grandeza. A magnanimidade é um dos melhores atributos do vencedor, e como dizia Pompidou: ?Não basta ser um grande homem, é preciso sê-lo no momento certo?. (*) é médico