Opinião
DOUTORADO AOS 84 ANOS
Na formatura da Pontifícia Universidade Salesiana de Turim, ano letivo passado, recebeu a láurea de doutor em Psicologia da Comunicação um aluno singular: foi Domenico Villone, do qual falaram todos os jornais italianos do dia seguinte. E não era para menos. Tratava-se de um laureado com 84 anos, com um curriculum vitae dos mais agitados que já passaram pela universidade turinesa. Na infância, acompanhou o pai militar na África, Abissínia, onde foi parar num campo de concentração, até o fim da Segunda Guerra. Depois de mil peripécias, constituiu família e parecia plenamente realizado no trabalho profissional, na área de marketing de uma grande empresa internacional. Não estava. Com a aposentadoria, resolveu voltar à escola de uma prestigiosa universidade, como é a de Turim-Rebaudengo. Agora, dará sua colaboração como voluntário na Casa de Repouso para pessoas da terceira idade em Trisoglio de Trofarello, Norte da Itália, dirigida pelas Irmãs Camilianas. Elas o convidaram a dividir com os hóspedes sua experiência e sua energia. O dr. Villone, em colaboração com o serviço de animação e terapia ocupacional da cooperativa mantenedora da instituição, está realizando para os hóspedes, parentes, voluntários, operadores, amigos da casa, encontros de estudos da sua tese de doutorado, que é uma auto-análise de sua vida aventurosa. ?Uma pessoa que faz um doutorado aos 84 anos torna-se famoso, mesmo que não o seja? ? explica ele com um sorriso, antes do encontro semanal, ao ser recebido por jornalistas, à entrada do amplo salão cheio de público, que veio ouvi-lo. ?É importante poder condividir o passado com alguém que demonstra que, aos 84 anos, se pode viver com entusiasmo e com objetivos audaciosos? ? explica a psicóloga Roberta Cantele. ?Nunca lhe sugeriram algum exame especial?? ? perguntam ao novo diplomado. ?Não ? responde ele ? sempre tive memória eficiente, tomando apontamentos?. ?E seu relacionamento com os jovens colegas e com os professores, todos bem mais jovens que o senhor??. Responde o dr. Villone: ?De igual para igual. Aprendi muitas coisas dos jovens e eles de mim?. ?E por que ainda estudar nesta altura da vida?? ? insistem os jornalistas. Responde, seguro, o dr. Domenico: ?A cultura serve para a vida. Não são as riquezas materiais que nos fazem felizes. Mas o que temos na alma. Esta riqueza, porém, precisa ser construída. Se alguém treina sempre, não envelhece nunca. É só o corpo que fica velho. Mas nós podemos permanecer jovens no interior. E isso é o que vale. Fica-se velho não quando passam os anos, mas quando se perde a esperança. E isso pode acontecer em qualquer idade. Também quando se é jovem. Sobretudo quando se sente que lhe foi roubado o futuro. A coisa que mais faz sofrer alguém é a sensação de viver inutilmente. Mas há remédio para este mal: é o saber, é o estudar. Só pode fazer bem, sobretudo quando os anos avançam? ? conclui o neodiplomado octogenário. Aí está uma boa resposta aos descrentes da capacidade de trabalho e realização das pessoas de idade avançada, tantas vezes desprezadas e eliminadas numa sociedade de lucros e vantagens. E também em certos ambientes da vida religiosa...