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Opinião

OS BLOCOS DA MINHA RUA

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Olhando das varandas da orla de Pajuçara, o Pinto da Madrugada é um caudaloso rio de gente, um ?caminho que anda...?, na música de Luiz Antônio. Mas, parafraseando Fernando Pessoa sob o heterônimo de Alberto Caeiro, os blocos de hoje são mais belos que os blocos que passavam pela minha rua, mas os blocos de hoje não são mais belos que os blocos que passavam pela minha rua porque os blocos de hoje não são os blocos que passavam pela minha rua. E porque os blocos que passavam pela minha rua paravam em frente à minha casa, vindos lá das bandas da Levada e Ponta Grossa, arrastando as massas em direção ao quartel general do frevo, o antigo Relógio Oficial na Rua do Comércio. Um deles, Cavaleiro dos Montes, criação do festeiro e operoso negro Ras Gonguila, nascido na minha Rua do Macena, conseguia levar para as ruas um brilho semelhante ao que seu fundador aplicava nos sapatos que engraxava, dos eminentes senhores, na Rua do Comércio. E porque eles não saíam apenas durante as prévias, os saudosos quinze dias de Maratonas Carnavalescas mas, também, durante os dias de carnaval. E porque no Sábado Gordo e nos outros três dias, íamos todos para a rua desfilar em velhos carros abertos, as conhecidas ?fobicas?, no tradicional ?corso?, ou a pé pelos paralelepípedos, fantasiados, para participarmos das batalhas de confete, serpentina e lança-perfume. ?Você pensa que pintar é canja/pintar não é canja, não/pintar só com Tintas Ypiranga/da firma de Brêda & Irmão?, ao som da melodia de Cachaça não é água. Lá iam toda a família e amigos, vestidos em macacões com a propaganda da firma, fantasiados de pintores, lata vazia de tinta e pincel na mão, fazendo de conta que melavam as pessoas. E porque não se viam tumultos, brigas, arrastões e nem helicópteros a nos vigiar. O mela-mela incoerente da maisena, do talco e da água (muitas vezes da sarjeta) só teve início uns dez anos após. E porque não parava por ali. Três clubes nos esperavam em noites alternadas: Fênix, Portuguesa e Jaraguá Tênis Clube. E porque voltávamos para a rua, amanhecendo o dia, tomando banho de mar na Praia da Avenida, dando voltas na Praça Deodoro ou Av. Com. Leão, sempre com a orquestra a tiracolo. Os blocos de hoje descem da Pajuçara e entram na Ponta Verde. Todos sabem disso. Mas poucos sabem quais eram os blocos da minha rua. E para onde eles iam e donde eles vinham. E por isso, porque pertenciam a menos gente, eram mais livres e maiores os blocos da minha rua.

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