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Opinião

REMEMORANDO

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Como no sábado passado, logo cedo, precisei hospitalizar Ivanelza na Santa Casa e deixá-la aos cuidados de meu filho Marcos Virgílio e minha nora Bruna. Ao contrário dos anos anteriores, só consegui chegar à Pajuçara perto das oito horas da manhã. O bloco já estava pronto para desfilar: o pelotão de estandartes, com Eraldo à frente, o carro alegórico do Pinto; a Pintoca com o coral e as orquestras. Os foliões, ansiosos, aguardavam o início do desfile e, atentos, checavam todos os preparativos. Esse é sempre um momento de elevada emoção; mas o sábado passado foi especial: Eduardo Lyra, abraçou-me aos prantos: ?vamos batizar o boneco do Zé Alfredo!?.Com Vitória, a viúva, os filhos André, Eduardo e Alfredo, ao toque dos clarins, fizemos o batizado ali na orla. Depois, saímos. É impossível descrever aquelas seis horas que duram o desfile do Pinto. O sol escaldante, os amigos muitos, os desconhecidos, incontáveis, que nos abraçam e nos estimulam, exaltando sua alegria. Os que pedem para o bloco andar mais rápido; os que apelam para seguir mais devagar, para durar mais. As fantasias variadas e criativas; o governador, brincando do início ao fim, misturado aos anônimos populares. Os jovens superando, muito, em quantidade, os maduros. Dos calculados 200 mil foliões que participaram do desfile, recebemos inúmeras manifestações de júbilo. Mas uma em especial, feita através de e-mail alguns dias após, transcrevo em parte, pois, creio, sintetiza um sentimento coletivo: ?Davi, vivemos na juventude grandes carnavais protagonizados pelos bailes da Fênix, Iate, Tênis, Alagoinha. Esvai-se o tempo na medida em que nos dispersamos em busca de caminhos que os desígnios da vida nos levam a proceder assim?. Continua: ?De volta, todos nós, deixando para trás, jovens, meninos cujos compromissos eram a alegria e agora transmudados em protótipos de senhores a vislumbrar a vida com foco na responsabilidade, na realização profissional, na construção da prole como forma de virar ancestral. Os anos passaram e você, Marcos (coletivizo com Marcial, Eduardo e Braga Lyra), teve a percepção de que entre o menino e o senhor estava existindo um perigoso hiato a comprometer a beleza interior da vida. Aí, você deixa de lado o sacerdotal jaleco profissional, com a visão de que não é bastante cuidar do corpo e resgata do baú a indumentária adequada para sublimar a alma?. O autor, Moisés Aguiar, conclui com Fernando Pessoa: ?Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É tempo de travessia e, se não ousamos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos?. E a Cláudia Falcão que cuidou tão bem de Ivanelza, jamais poderei agradecer suficientemente. Um bom e saudável carnaval para todos.

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