Opinião
RESSACA MORAL
O último dia da maior festa popular do mundo, o carnaval brasileiro, chegou ao fim carregando pelas ruas gente cheia de alegria e outras tantas repletas de frustração, depressivas, tristes. É o preço pago pelos excessos do desgaste físico aliado ao consumo do álcool e à aproximação da volta à realidade. Quarta-feira ingrata chegou, bolso vazio, orçamento comprometido pelo resto do ano. Tempos atrás, as amigas Flávia, Isabela e Maria tinham como meta em suas vidas conhecer o carnaval da Bahia. Passaram um ano cotizando, privando-se de tudo até o dia de realizar o maior sonho de suas juventudes. Quando fevereiro chegou, destino, Salvador. Abadás dos melhores blocos: Chiclete, ASA, Ivete, Olodum... muita paquera, gente bonita, festa, só festa. Viva os deuses que abençoam a terra dos orixás! Anos se passaram, as meninas realizaram suas fantasias, mas até hoje lamentam o infortúnio de pagarem juros sobre juros dos cartões de crédito que utilizaram para comprar espaço no camarote e kit completo do irresistível carnaval baiano. É inevitável a ressaca pós-carnaval que se apossa das pessoas. Com mais facilidade daquelas que já não estavam emocionalmente bem equilibradas e caíram na folia. Só poderia ser pior se o último dia fosse um domingo e o ressacado acordasse no fim de tarde ouvindo a voz do Faustão. E a tal da ressaca moral, será que existe mesmo ou é apenas um meio para justificar os males feitos, com ou sem o consumo da bebida alcoólica durante o carnaval? A ressaca provocada pelo porre da noite anterior tem como consequências problemas meramente relativos à química orgânica como forte dor de cabeça, sensação de vômito, boca seca, total mal estar que deixam o corpo humano em estado de desidratação, completamente debilitado. E a tal da ressaca moral? Na semana que passou, assistimos ao espetáculo das eleições das novas mesas diretoras do Congresso Nacional. Um festival de besteirol em discursos vazios, meras retóricas, um desfile de pierrôs e colombinas travestidos de moralistas. Velhos traquinos da política brasileira pregando ética como se essa prática em algum momento tivesse existido nos currículos parlamentares desses personagens. Nem lhes dói na consciência desfilar para o povo brasileiro fantasiados de tanto cinismo. Mas será que pelo menos acordaram no dia seguinte com a maldita ressaca moral?