Opinião
Linhas cruzadas e pouca reclama��o
O cliente-usuário tenta mais uma vez. Resignado ou impaciente, tenta de novo e assim vai repetindo seu gesto em busca de uma simples ligação de telefone celular. O número de aparelhos no Brasil superou o número de habitantes desde o ano passado. Na tendência planetária, o país também é um dos maiores mercados para a telefonia móvel. As empresas são gigantescas, multinacionais, com alcance amplo sobre a vida das pessoas e a chamada vida pública ? a política e os governos. A propaganda informa que os brasileiros estão no topo com a telefonia. Aqui é o suprassumo do mercado e da vontade de adquirir o mais novo lançamento na área. Tamanha admiração pela novidade tecnológica não tem um correspondente na vida prática. Como a reclamação formal da má qualidade do produto ainda é coisa rara, quase não se tem consequência concreta para os maus prestadores de serviço, os empresários que controlam esse segmento da economia. Muitas vezes, a revolta do usuário diante da ligação que não pega (ou vive caindo) é demasiada efêmera. A fúria é repentina, quase automática ao insistente problema. Mas passa rápido do mesmo jeito. Se, por um lado, a população que paga caro pelos produtos e serviços ainda pouco exige de seus direitos indiscutíveis, a outra ponta da ligação interrompida é a que realmente merece ainda mais atenção. O poder público faz muito pouco para que as empresas cumpram o básico na entrega de seu produto. Se houve investimentos milionários para viabilizar a infraestrutura no campo da telefonia, por que aqueles que vão ganhar dinheiro com o negócio não são cobrados como deveriam? A sequência de pequenas panes acaba chegando numa crise propriamente dita, quando um número expressivo de usuários é alvo do mesmo problema, ao mesmo tempo. Nessas ocasiões, agência reguladora, o parlamento brasileiro, ministros, Judiciário e outras esferas representativas soltam a voz em defesa da sociedade. Ainda falta muito para uma ligação direta, até o fim.