Opinião
O CARNAVAL DO PAPA
Foi em plena segunda-feira de carnaval e no Recife Antigo, dia dedicado aos blocos líricos, quando as canções românticas clamando os amores e desamores terrenos são por todos cantadas, que o anúncio da renúncia do papa Bento 16 surgiu; justamente naquele dia, quando os festejos de Momo chegam ao seu auge e já ameaçam findar. Naquele momento, quando as paixões humanas alcançam seu clímax e sem maiores pruridos, desbragada e publicamente se demonstram, a renúncia de Joseph Ratzinger, um concreto ato de resignada finitude, o trouxe dos pedestais do Vaticano e o aproximou daquela multidão, sequiosa pelos efêmeros e passageiros prazeres dos dias de carnaval. Carnaval, que começara no gigantesco Galo da Madrugada, quando saímos na frente com a primeira orquestra, com Tereza e Eduardo Lyra, e ao chegarmos à Avenida Dantas Barreto, os clarins comandados pelo Júnior, nos fizeram emocionante saudação. Entusiasmado, Eduardo deu vazão à sua sede e, ao final, para acompanhar o último trio elétrico, junto com Pedro Nélson e Osvaldo Viégas, o transportamos em cadeirinha de algodão, para delírio dos foliões, que exultantes gritavam: ?eu queria ter uns amigos desses!?. No domingo, Olinda, suas fantasias e suas brincadeiras. Os tradicionais blocos e troças puxando gente pra cima e pra baixo das ladeiras. Entre tantos conterrâneos, o grupo fantasiado dos colegas Robério Melo e Claudia Falcão. Novamente em Olinda na terça-feira, para o Encontro dos Bonecos Gigantes, passamos grande sufoco: postados logo após a primeira orquestra, na descida da estreita Rua do Amparo, entalamos com a subida do Patusco. Ninguém descia e ninguém subia. Felizmente, o espírito é para brincar e, não se sabe como, os bonecos desceram e o Patusco subiu. Concomitantemente, enquanto milhares acompanhavam os blocos, os maracatus e os caboclinhos; outros tantos viam os shows com Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Alceu Valença, Alcione, Elba Ramalho, Lenine, e a economia era amplamente bafejada: os hotéis repletos, os restaurantes cheios, os táxis topados e os ambulantes faturavam. Contudo, esse carnaval ficará marcado como o carnaval da renúncia de um papa que, em suas dificuldades internas, tanto se aproximou da natureza humana: em seus estorvos, em suas limitações e em sua efemeridade. Ítalo Svevo alertava que as pequenas perdas são insignificantes. São as grandes perdas que levam à grande resignação: em São Pedro ou em Olinda, somos todos humanos.