Opinião
OS MUROS DO QUARTEL
Sempre morei no Bairro do Farol, em Maceió. Lembro-me que, ainda menina, observava o quartel do 59º BIMTz do Exército Brasileiro com o típico encantamento infantil, alheio a tudo o que se passou na ditadura militar, triste capítulo da história do Brasil. Eu sentia certo orgulho em dizer que morava perto do quartel. Havia, nas minhas palavras, um misto de sensação de segurança e reverência à beleza daquele prédio tão imponente, no cenário comercial da Avenida Fernandes Lima. Jamais esqueci da única vez em que estive lá dentro, numa visita promovida pela escola. Adentrar naquele lugar tão misterioso foi uma aventura que marcou profundamente o meu imaginário infantil. Recordo-me que, da nossa casa, ouvíamos os toques das cornetas, as vozes dos treinamentos e até os tiros de um crime ocorrido na década de 1980, fato que gerou muito burburinho em toda a vizinhança. De certa forma, aquele quartel sempre fez parte da minha história. Quando voltava da escola, os muros do quartel sinalizavam que minha casa estava próxima. Eram muros brancos, baixos, seguidos de duas barras horizontais, demarcados por colunas de pontas triangulares ? que lembravam obeliscos ? a cada três metros, mais ou menos. Lindas árvores frondosas ajudavam a dar mais beleza ao lugar, presenteando com sombras muito confortáveis os que por ali transitavam. Nas guaritas, soldados portavam armas, em posição de alerta, garantindo a segurança da entrada do quartel. Aqueles muros eram forte referência para todos os que passavam pela maior avenida da cidade. Mesmo sem adentrar naquele espaço, a transparência dos muros permitia que nossos olhares acompanhassem um pouco da dinâmica do lugar. E eu achava tudo lindo. Aos poucos, porém, o cenário foi mudando. Primeiro, a entrada de carros passou a ser fechada com portões de metal, de modo que parte da visibilidade já ficou comprometida. Agora, os antigos muros vazados dão lugar a muralhas fechadas, altas, que isolam o quartel do olhar da comunidade. Assisti, pasmada, ao fechamento paulatino dos muros e ao corte das belas árvores. Aquilo foi um forte golpe para os resquícios do meu imaginário infantil. Fico a me perguntar os motivos que levariam àquele isolamento. Quero crer que já não se trata mais do distanciamento do Exército com relação à comunidade. Esse estranhamento, parece-me, foi vencido com a solidificação da Democracia. Apesar do militarismo, o Exército vive outros tempos. É ele, por exemplo, um dos maiores protagonistas das ações de salvamento de grandes tragédias naturais, como enchentes e secas, situações em que as Forças Armadas se aproximam da comunidade. Resta-me especular se foi uma questão de segurança. Pequenos furtos, roubos? Bem, se essa é a justificativa, só posso lamentar. É triste constatar que, em Alagoas, até o quartel do 59º BIMTz do Exército Brasileiro precisa se proteger atrás de muralhas para evitar a criminalidade. Não é algo um tanto absurdo? Enfim, seja qual for a justificativa, está feito. Essas reflexões, porém, longe de figurarem como protesto ou algo parecido, são apenas o registro do meu pesar. Tudo isso me faz lembrar a música que Marisa Monte compôs quando viu pintados de cinza os muros dos viadutos de São Paulo, anteriormente marcados pelos lindos versos do poeta Gentileza: ?Apagaram tudo, pintaram tudo de cinza, só ficou no muro tristeza e tinta fresca...?. No meu imaginário, o quartel agora é cinza e isso me entristece. Andar pela Avenida Fernandes Lima já não tem o mesmo gosto para mim.