Opinião
NEM CONDENAR NEM ABSOLVER PRECOCEMENTE
Em casos como o da médica que está sendo acusada de apressar a morte de pacientes numa UTI de Curitiba é muito comum cravar que a imprensa está condenando antecipadamente. Não é verdade. Em geral, nós é que fazemos o pré-julgamento. A imprensa apenas noticia o fato. Nós é que queremos crer no pior. Nesses momentos, é comum surgirem indivíduos cautelosos e prudentes para lembrar a necessidade do contraditório. Outro médico, há pouco tempo, utilizou esse espaço para lembrar que técnicas e aparelhos médicos avançados não devem ser usados além da conta, ou corre-se o risco de prolongar a vida de forma fútil e cruel. Isso não deixa de ser verdade, mas o caso em particular parecer ser de outra natureza. Da mesma forma que é perigoso condenar alguém de prontidão, também é temerária a absolvição precoce. O colunista não esperou que o caso ?esfriasse?. Após a publicação do texto, surgiram detalhes como o policial que ficou 4 meses trabalhando disfarçado na unidade. Ficou claro que não foram ilações infundadas. Para quem leu, pode ter ficado a impressão de que se um dia tivermos um parente numa dessas unidades, podemos perdê-lo a qualquer momento por uma decisão isolada do plantonista, que decide sobre a vida e a morte. Não é bem assim. Seja em unidades intensivas, leitos comuns ou em casa, a decisão de não mais investir num paciente deve ser compartilhada e discutida com a família, e em casos especiais, até com o próprio indivíduo. Médicos são processados indevidamente todos os dias. É um dos muitos motivos pelos quais jovens sonhadores transformam-se em profissionais frustrados e arrependidos. Por isso, é preciso distinguir claramente acusações levianas sem embasamento de casos como o de Curitiba, investigado cautelosa e secretamente pela polícia por um ano. O percentual de processos médicos que terminam em condenação é baixíssimo, isso porque a maioria deles é resultado de uma sociedade que acha que mortes e sequelas só acontecem quando há erro. Acham que a medicina é perfeita. Não é. É difícil não julgar uma mulher cuja imagem parece personificar o terrível apelido recebido: ?monstro da UTI?, mas tentemos. Mas o mais importante mesmo é separar as coisas. Médicos sofrem cotidianamente com acusações infundadas geradas pelo inconformismo do ser humano com suas próprias limitações e finitude humanas, mas existem também criminosos comuns, como em todas as outras profissões.