Opinião
O PAPA E AS BOTAS DO MACHADO
A renúncia do papa Bento 16, como não poderia deixar de ser, trouxe para a primeira página da mídia mundial a situação atual da Igreja Católica, com suas contradições e seus desafios. Não por outra razão a CNN em sua cobertura da despedida de Ratzinger, através da palavra do vaticanista John Allen, alertou sua âncora Christiane Amanpour para não confundir aquele momento com a eleição americana: ?as transições do papado são mais sobre o estilo do que sobre a substância, não teremos um novo papa que vá rejeitar os ensinamentos da Igreja sobre aborto e casamento gay. Talvez um papa mais popular, que use mais a esfera do mundo pós-moderno, que dê uma face e uma voz mais positivas para a mensagem da Igreja?. O vaticanista Allen continuou: ?ao abdicar, Bento 16 deixa para trás um mal-estar em torno da Igreja, um bocado de negócios não resolvidos, a começar pela necessidade de que padres criminosos e também os bispos que os acobertaram prestem contas, afinal, pela pedofilia desenfreada?. Os escândalos sexuais e financeiros, reaquecidos na última semana com reportagem do romano La República, azedaram o debate sobre esse momento de renúncia,sem similar nos últimos seiscentos anos. Mas existem é claro os vaticanistas mais dóceis, como o jesuíta Thomas Reese, que também na TV, exaltou ser a mídia italiana imprestável, muito mais ópera do que que jornalismo. Enquanto lá do alto da basílica de São Pedro, Bento 16 se despedia, ao nível do chão, ali na praça, entre a multidão, garbosamente portando a bandeira brasileira, a freirinha gaúcha Cecília Breno, virava celebridade instantânea ao dar várias entrevistas, onde embora apoiasse Ratzinger, tecia críticas: ?o papa tem sido muito duro com o Brasil, silenciou muitos teólogos brasileiros da Teologia da Libertação?. A religiosa que vive em Roma, continuou: ?A sociedade cobra da Igreja essa posição. Jesus foi revolucionário, e a Igreja não pode deixar de ser revolucionária, tem de responder aos anseios mais profundos do ser humano?. Ela defendeu ainda a flexibilização do celibato e a ordenação de mulheres. Outro religioso presente na cerimônia,o padre paranaense Marcos Roberto dos Santos, 35 anos, afirma que Bento 16 foi excessivamente eurocêntrico, privilegiou a Europa, onde segundo ele o problema era a ?desertificação da fé? e teria desprezado o Brasil, onde os problemas seriam o avanço do protestantismo, a corrupção, a violência e a pobreza. Ex positis: os desafios e as dificuldades para o novo papa, começam e continuam dentro da própria Igreja. Some-se ainda,para desalento geral, o apego disseminado entre os religiosos da maioria das denominações ao acúmulo e à ostentação material, em oposto absoluto ao exemplo dado por Cristo. Momento aziago a nos remeter ao clamor de Machado de Assis: ? As botas... as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar?.