Opinião
UM TRIBUTO AO FEMININO
Desde 8 de março de 1857 que a famosa manifestação trabalhista ocorrida numa fábrica nova-iorquina, com a morte de mais de uma centena de mulheres, confere a esta data a simbologia da luta feminina. Apesar dos anos dessa revolução representarem uma boa parte da história deste combate, as mulheres são protagonistas de uma história muito mais antiga, que engloba tanto poder como desafios. Para que eu chegue a um fato que vou contar da famosa médica alagoana Nise da Silveira ? a mulher que revolucionou a psiquiatria ? transcorreram 69 anos de lutas, desafios, embates e vitórias. Nise da Silveira, em 1926, foi aprovada no curso de Medicina da Universidade da Bahia. Numa turma de 157 alunos, ela era a única mulher. Olhada ora como intrusa, ora como objeto de desejo. Porém Nise venceu e afirmou-se como a primeira aluna da turma. O psiquiatra alagoano Arthur Ramos, companheiro de turma de Nise, conta um fato ocorrido na aula inaugural de Parasitologia. O mestre, dr. Pirajá da Silva, fala: ?É tempo de criarmos um serpentário na escola?. Em seguida, veio o funcionário trazendo uma cobra viva presa num vidro. O professor tirou a serpente da garrafa e estendeu-a à caloura Nise, que olhava o animal peçonhento com angústia e repulsa. Com 156 pares de olhos cravados nela, todos prontos para soltar o riso ao menor vacilo, Nise segurou a cobra durante dois minutos. Então, virou-se para o colega ao lado e, controlando a voz, disse: ?É a sua vez!?. O colega recusou pegar o réptil, levando uma vaia sonora da turma inteira. Ninguém mais duvidou dessa corajosa estudante alagoana. No início desta semana, fui convidado a fazer uma referência ao fato que representou o dia 18 de março de 1957, na Academia de Letras e Artes do Nordeste, em Alagoas, presidida pela intelectual e cultora musical Selma Teixeira Britto. Revivi os grandes momentos que marcaram a luta vitoriosa do feminismo. Acredito que na maneira feminina de pensar e agir está a chave de um mundo melhor. Penso nas mulheres que subiram os degraus da hierarquia social, educacional, empresarial, política e administrativa; penso nas garis e nas mulheres do campo em seu trabalho ao sol. E penso, sim, nas mulheres invisíveis, domésticas, mulheres do lar, nem sempre reconhecidas e tão necessárias. Todos os dias são dias da mulher, para parabenizá-las e agradecer por tão dedicada presença em nossas vidas.