Opinião
NAPOLE�O ERA MELHOR QUE BONAPARTE
Após longa e penosa travessia oceânica, ao vislumbrar aquela terra exuberante, pujante de florestas virgens e árvores frutíferas, rios de águas cristalinas, animais exóticos, Colombo exclamou: ?É o paraíso! Chegamos ao paraíso!?. Mas era apenas o Haiti, que se transformaria no maior exportador de açúcar do mundo. Monocultura, responsável, segundo alguns estudiosos, por parte de seus atuais males. Depois, a natureza mostrou sua inquietude: terremotos e furacões assolavam aquela terra paradisíaca com perversa frequência. Com o tempo, outros males afloraram: no início de século 19, um ex-escravo, Henry Cristophe, elegeu-se prometendo um governo voltado para o povo, quando assumiu, construiu palácios, declarou-se rei e distribuiu títulos nobiliárquicos, como ?Duque de Marmelada e, ?Conde de Limonada?. O pior furacão no hoje miserável Haiti, todavia, seria a dinastia iniciada por Papa Doc e seguida pelo filho Baby Doc. Papa, um médico pacato e dedicado, após eleger-se, governou com tirania ímpar por mais de 30 anos, apoiado por sanguinária milícia, a Tonton Macoute, comandada por uma sinistra Madame Max, que guiava pessoalmente as sessões de tortura, com especial apreço por retirar os corações de seus opositores ainda vivos e batendo. Papa, contudo, era um homem refinado, detestava presenciar violência e preferia curtir as suas coleções de Ferrari e Harley Davidson. No Brasil, a longeva ditadura militar iniciada em 1964, deixou severas sequelas. A Argentina é destaque no número de mortos, vítimas de repressão política. A Bolívia tem o maior número de golpes militares, 93. O México tem o partido que ficou mais tempo no poder. Cuba teve por mais de meio século um único governante. A Venezuela detém o recorde de tempo passado sob o governo de caudilhos. A América Latina tem padecido sob o mando de ditadores ou homens fortes que sempre recorrem à força ou a manobras oportunistas para impor suas decisões. Em comum a todos, sem distinção de ideologias, sempre a obsessão contra a liberdade de imprensa e silenciar a oposição. Mas as ditaduras não são iguais, existem as envergonhadas e as assumidas. As corruptas e as corruptoras, e as que se disfarçam de democracias. O legado de Hugo Chávez é inequivocamente alinhado com essa linha historicamente maléfica de autoritarismo pessoal, de desprezo e enfraquecimento das instituições democráticas. Não existe avanço nem modernidade nenhuma aí, mas uma herança de atraso, a permanecer como nefasta ameaça sobre o continente. Essa compulsão ao atraso, ao obscurantismo, às vezes disfarçada, como na Venezuela, em alguns momentos, como na Bolívia do governo Galeanos, assumiu integralmente a sua insânia: ao tomar seus porres, o iluminado ditador saía dando tiros para cima no palácio e clamava: ?Vejam! Pensando bem, Napoleão era melhor que Bonaparte!?.