Opinião
CHOR�O: REFLEX�ES
Na semana passada, faleceu o cantor Chorão, do Charlie Brown Jr., compondo, assim, a galeria ? com a qual, infelizmente, já estamos acostumados ? de celebridades vitimadas pelo uso de drogas. Talvez as palavras a seguir não agradem à legião de fãs que lamentam a morte do ídolo juvenil. No entanto, não se trata de emitir juízos sobre a pessoa, mas uma reflexão necessária sobre o fato ocorrido. É preciso ler os sinais dos tempos. Os meios de comunicação, como sempre, surpreendem. Trataram o acontecimento desde a simplicidade dos fatos cotidianos até o sensacionalismo de sempre. Mas uma questão ficou alijada. Como é possível, um homem, ainda jovem, inteligente, livre pensador, marcado pelo sucesso, tornar-se escravo das drogas a ponto de ter a vida ceifada? A consciência é sempre um lugar inviolável, onde, de fato, só Deus e o homem habitam. Somente Deus e Chorão sabiam de suas lutas, de seus medos, das suas escravidões. Não nos compete julgá-las. Mas, do trágico fato, algumas lições podem ser tiradas. Primeiro. Por mais belas que sejam as palavras que dissemos, as composições que fazemos, se elas não forem fruto de uma vida ancorada em um realidade que lhes dê sentido, não passam de palavras lançadas ao vento. Um belo discurso, mas desconexo. Não convencem nem ao próprio autor. E mais ainda: por mais que alcancemos o que desejamos, se não temos uma realidade que faça tudo isso ter sentido, ao final, o gosto do vazio permanecerá. Recordemos aqui as palavras do Salmo 126: ?se o Senhor não construir a nossa casa, em vão trabalharão seus construtores?. O sentido da vida, as grandes questões da existência, são realidades com as quais não vivemos sem enfrenta-las e sem encontrar as respostas devidas, sob o risco de tornarmos vulneráveis. Evidentemente estas respostas não são unívocas, mas são sempre respostas válidas. Emerge também outra lição. Se há pessoas vulneráveis, há sempre quem preencha as lacunas da existência. Drogas matam, overdose é suicídio, e traficante será sempre um criminoso vil. Se o combate ao uso de drogas e entorpecentes não impede de vermos cada vez mais vítimas, blindemos a nossa sociedade com a maturidade dos valores perenes e imutáveis. Que a morte do Chorão não seja mais uma oportunidade de sensacionalismo, nem tributos com a finalidade de esconder o que não poder ser escondido: uma vida sem sentido é sempre uma vida vulnerável à morte.