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EM�LIO SANTIAGO, AGOSTINHO DOS SANTOS, TITO MADI...

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? É o supremo triunfo do espírito criador humano, essa coisa estranha: umas tripas de carneiro estendidas sobre um pedaço de madeira podem extasiar a alma do homem. É o violino! É como Shakespeare, em Much Ado About Nothing II/3, expressava-se sobre a boa música. Otto Maria Carpeaux estava convencido de que a música, assim como a entendemos, é um fenômeno específico da civilização ocidental. Era respaldado por Osvald Spengler e Arnold Toynbee, ao afirmar que em nenhuma outra civilização um compositor ocupa uma posição central na história da nossa civilização, como Beethoven e Bach. Alertava que, por mais que se tentasse, não se conseguia introduzir a música chinesa na Europa. Tá bom que a nossa Bossa Nova tem apreciadores no Japão, mas esse é um país culturalmente ocidentalizado... Afirmava que a música da Antiguidade não exerceu sobre a nossa a mesma influência da literatura, das artes e da filosofia gregas. Poucos são os fragmentos dela que subsistem hoje, registrando, ainda, que o cantochão gregoriano, que é o mais antigo, nos comove mais religiosa que esteticamente. Das canções dos troubadours medievais muito pouco resta. A música seria um fenômeno especialíssimo nascido a partir do século 14. O Emílio Santiago nos deixou na quarta-feira passada, logo cedo da manhã, com uma pressa injustificada para todos os seus fãs, entre os quais estão esse signatário e sua esposa, ambos devotados apreciadores de sua voz aveludada, seu repertório inigualável e ainda com uma frustração a mais: embora tenhamos cruzado com ele algumas vezes, no Rio de Janeiro, nunca o assistimos ao vivo; lá, nunca coincidiu nossa presença com um show seu; aqui, quando esteve se apresentando, nunca pudemos estar presentes. O Emílio era daquela estirpe de cantores que, parece, sempre estiveram conosco, na mesma esmerada tradição de Mário Reis, que não alcancei, mas que conheço de gravações. Mário era de uma época de vozeirões operísticos e ele surgiu com uma voz contida, uma interpretação intimista, que depois seria herdada por Tito Madi e suas canções coloquiais, como Chove Lá Fora. Penso que Agostinho dos Santos, que faleceu em um desastre de avião em Paris, seguiu esse sedutor caminho: nos acalentar com voz e repertório suaves e românticos, nos suavizando os dias e nos encorpando as noites ao lado da mulher amada. Quem agora herdará esse patrimônio de suave coloquialidade? Quem nos acalentará com voz aveludada, canções sedutoramente românticas, quem ,com esse artifício dos deuses, nos reaproximará da mulher amada, naqueles momentos de turbulência que afetaram até Bento XVI em seu matrimônio com a santa Igreja? Quem nos dará ânimo, quando, esgotados por dura semana de trabalho, vislumbramos que a sexta-feira é preâmbulo de bons momentos, com boa música, bom vinho e esses sonhos que só são possíveis se adentrados por boa música. Quem?

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