Opinião
O TIRO DE MISERIC�RDIA
Palmeira dos Índios é uma cidade de contrastes e histórias marcantes na construção do desenvolvimento de Alagoas. Entre realidades, causos e anedotas os antigos têm muito a contar como o famoso feirante que vendia carne de cachorro por carneiro; o surdo e mudo que morava em baixo das arquibancadas do estádio e quando o CSE perdia virava um urso perigoso; a mais sedutora prostituta do cabaré, Maria Topada que chegou à velhice na miséria perambulando pelas ruas, bêbada implorando a caridade da sociedade; o famoso Zé Joana, vaqueiro que deu à luz uma criança ? típico caso de hermafroditismo ?, manchete nas principais revistas nacionais. Quem não se lembra de d. Inocência, com seus 250 quilos de banha!? Os menores homens e mulheres do mundo, cujos pertences estão expostos no Museu Xucurús? A mulher sem cabeça que vagava pelas madrugadas aterrorizando os que acreditavam em assombração? O lobisomem da Praça das Cassuarinas, descoberto depois como sendo um moço encapotado que frequentava a casa de uma viúva? Lendas e verdades são comuns entre os interioranos de todos os lugares. Os maiores contrastes de Palmeira estão entre a cultura e a violência. Foi lá que se revelou nos anos 40 a 70 um invejável berço cultural. Como por ironia do destino, a história também registrou à época um dos maiores palcos de violência que o Estado conheceu. Renomados colégios como o Pio XII e Cristo Redentor foram modelos de boa educação, formação e exportação de jovens para diversas universidades do país. O governador Muniz Falcão contribuiu na evolução desse potencial inaugurando o Colégio Estadual Humberto Mendes. Oportunidade para estudantes de famílias humildes que não possuíam recursos para pagar escola particular para os filhos. O corpo docente dessas unidades de ensino, por anos, foi referência no Nordeste. O prefeito Robson Mendes cunhado governador o incentivou a contemplar o município com um colégio público, mas contrastantemente assumiu a postura de xerife, dono da cidade. Protagonizou horror e sangue amparado pelas metralhadoras da sua milícia pessoal. Nos anos 60, o berço da cultura virou terra sem lei. Foi justamente nesse período que surgiu o Hospital Regional Santa Rita, durante décadas a mais importante instituição de saúde do Agreste, hoje enfrentando uma situação dramática, crítica, vexatória. A população está aterrorizada, não com fantasmas ou lobisomens apaixonados, mas com a agonia vivida pelo seu hospital. Dele, depende a saúde de milhares de pessoas, centenas de empregos, profissionais respeitados. Se município e Estado não socorrerem o Santa Rita urgentemente, é uma violência tão cruel quanto à praticada por Robson Mendes no seu tempo. Vidas humanas ficarão na mira da metralhadora da irracionalidade à espera do tiro de misericórdia.