loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

CARTA

Ouvir
Compartilhar

Nunca mais tinha recebido uma. Peguei nas mãos, com cuidado, e como antigamente esperei um momento calmo para lê-la. Fiquei me lembrando de como eram as cartas. Primeiro era preciso um bloco de papel fino, especial, com pautas. Quando se escrevia com a caneta de pena, uma Parker 51, por exemplo, ou outra caneta-tinteiro, com letra a mais caprichada possível; no verso da página se via a sombra dos escritos. Só se escrevia de um lado da página, tal era a finura e leveza do papel. Canetas esferográficas não existiam ainda, e se existissem estuprariam este tão fino papel. O envelope, ah, o envelope. De um branco, verde ou azul pálidos, ligeiramente menor que a largura do papel, era fino também. Suas bordas, quem se lembra, eram corridas com listas inclinadas de cores mais fortes, verdes e amarelas, ou azuis e vermelhas, como se fossem as fitas de sinalização de segurança hoje. Parece que os estou vendo de novo. As páginas da carta tinham que ser dobradas primeiro no comprimento e depois na largura e, só assim, caberiam no envelope. Depois eram coladas com goma arábica em casa ou nos rolos de cola do correio. Isso mesmo. Era necessário selá-las, de acordo com o local de destino. Selos diferentes com preços diferentes. Compravam-se os selo em qualquer lugar, como créditos de celular hoje. Que coisa eu me lembrei ainda. Os selos vinham com uma fina camada de cola atrás, pois se não houvesse uma agência do correio por perto, era só lamber atrás do selo, colá-lo na carta e colocá-la depois em caixas de correio na rua, ou alguém levar até a agência mais próxima. Que loucura boa. Todo mundo lambia, homem, mulher e menino e ninguém adoecia, ninguém tinha nada, só alegria e expectativa em mandar uma carta. Era um acontecimento, um programa ir colocar cartas no correio. Alguns enamorados perfumavam suas cartas, que delícia. As moças com batom beijavam as cartas, mandando a impressão de seus lábios para o amado. Recebi algumas assim. Tempo bom. Escrever e receber cartas era um prazer. A ansiedade de recebê-las, a dedicação, a atenção em escrevê-las, só quem viveu sabe. Depois, normal, começaram as mudanças. As canetas esferográficas, mais práticas e baratas, pediam um papel mais grosso, mais rude. Envelopes maiores, e por aí vai. Parte do charme se perdeu. O telefone diminuiu o fluxo das correspondências em cartas. Quem mais escreve cartas hoje? Correspondência impressa em envelopes picotados, com comunicados e contas, só restou isso. Ligação telefônica, e-mail, MSN, WhatsApp, Instagram, Facebook, Skype e similares aniquilaram de vez a carta. Amanhã você nem lembra do que leu hoje. Das contas, sim. A internet que adoramos e da qual somos escravos, nos trouxe a indiferença pela escrita correta. Criou-se uma linguagem própria, abreviada, cheia de ifis e sifes, e aberrações escritas, tão ao gosto dos ?modernos?. Para que perder tempo procurando escrever certo. ?Sifu? a gramática. É moderno escrever e falar errado. Ora, são novos tempos. Mesmo assim, neste caos, posso lhes dizer sem medo: Quando quiserem dizer a alguém, algo muito importante, e/ou desejarem que o que vão dizer fique marcado, que lhes deem atenção, ou se acharem que suas palavras não saíram precisas, por emoção, raiva, ou outro motivo qualquer, experimentem escrever uma carta, com calma, com verdade, com atenção, e vão ver o poder que uma carta tem. Garanto e assino embaixo.

Relacionadas