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Desafios bem al�m do despojamento

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Cedo chegou a primeira Sexta-Feira Santa ao pontificado de Francisco. Com a graça de Deus, espera-se que a Páscoa, mais cedo que possa supor a vã filosofia, desanuvie o pesado clima secular que se assentou sobre a Santa Sé e provocou a inusitada e inesperada renúncia do papa Bento XVI. Francisco assoma ao trono de São Pedro bafejado pela simpatia global. Além dos católicos, outras vertentes cristãs, e com particular ênfase, outras religiões (equivocadamente) tidas pela opinião pública como ?adversárias?, tal qual os islâmicos, manifestam sua simpatia pelo primeiro não europeu eleito papa. Empatia turbinada pelas atitudes modestas, quase ascéticas, mantidas pelo sacerdote que desde antes já primava pelo despojamento material. Pagar a própria conta, usar transporte coletivo, dispensar a cor vermelha nos exclusivos sapatos papais, cambiar o ouro do anel por prata dourada e outros gestos sensibilizam os corações mais empedrados e amainam o ceticismo de muitos. São demonstrações de desapego num mundo marcado pelo egocentrismo, pelo afã por riquezas e pela radicalização do vale-tudo pela acumulação do vil metal. Tudo isso, por exemplo, são elementos que se tornaram característicos na mais importante instituição financeira católica, o Banco do Vaticano. Também conhecido como Instituto de Obras Religiosas (IOR) tornou-se uma espécie de grife da corrupção internacional, figurando há muitos anos nas listas das instituições envolvidas nos principais escândalos financeiros mundiais. Sem dúvida, ali está uma das cruzes depositadas sobre os ombros do vigário de Roma e o desafio é dela retirar a imagem da Santa Igreja, limpando o nome das finanças da Santa Sé. Outra cruz brutal a ser expurgada é a duríssima realidade da multiplicação das denúncias de abuso sexual e pedofilia que varrem as paróquias mundo afora. Outro calvário é a incapacidade da Igreja, enquanto instituição, vencer os preconceitos frente aos desafios contemporâneos que afligem seu rebanho, como a tolerância quanto aos divorciados, e a necessidade de um olhar fraterno e aberto para avanços da ciência médica, como as pesquisas em células-tronco e até o estímulo ao uso da prosaica camisinha. Grandes desafios à espera de um grande papa.

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