Opinião
VIDA E MORTE DE UM HETER�NIMO
A tendência de Fernando Pessoa (1888-1935) à criação de pessoas fictícias vem desde os seis anos de idade, revelada por ele em carta ao amigo e crítico literário, Casais Monteiro, já em janeiro de 1935, próximo de sua morte, aos 47 anos, em outubro do mesmo ano. Disse que encontrara um ?amigo invisível?, Chevalier de Pas, ou Cavaleiro do Nada, ?por quem escrevia cartas dele a mim mesmo?. Aos quinze criou o que veio a chamar de heterônimos. Jacinto Prado Coelho em Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, diz: ?cerebral e retraído, inimigo da expansão ingênua, Fernando Pessoa concebeu o projeto de se ocultar na criação voluntária, fingindo indivíduos independentes dele ? os heterônimos ?, e inculcando-os como produtos dum imperativo alheio à sua vontade?. Aurélio insinua que a palavra ?heterônimo? parece ter começado a circular logo após o surgimento de Pessoa, que além de usar o próprio nome ? ortônimo ? em várias obras, outras assinou com nomes de terceiros, cada um com características literárias próprias e biografia criada por ele mesmo. E diz: ?Nessa diferença de características entre as obras das criaturas e as do criador é que reside a distinção entre heterônimo e pseudônimo?. Deixemos que Pessoa discorra sobre a gênese dos seus heterônimos, ainda na carta: ?Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico. Tendo para a segunda hipótese, [...] Seja como for, a origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação?. Sobre os três principais heterônimos, diz: ?Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos [...].Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887, no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa [...] Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 [...] é engenheiro naval (por Glasgow)?. Como vimos, deu-lhes vida e apenas Alberto Caeiro teve data de falecimento. Ricardo Reis, estava no Rio de Janeiro desde 1919, lá ficando, com a morte de seu criador em 1935. Mas a genialidade de José Saramago (1922-2010) resolve, em 1984, reconstruir a identidade de Reis, tornando-o protagonista do romance O ano da morte de Ricardo Reis. Na trama, desde dezembro de 1935 ele é repatriado e vai viver nove meses numa Lisboa conturbada pela ditadura de Salazar, recebendo, várias vezes, a visita de Pessoa, inclusive na sua morte em setembro de 1936.