Opinião
A �LTIMA JOIA DA COROA
Acabamos de viver a Semana Santa, um momento dos mais sublimes para o mundo cristão, culminando com a Páscoa, que simboliza a passagem da morte de Jesus Cristo para a vida: a ressurreição, a festa das festas que todos comemoram com alegria. Todos talvez seja exagero afirmar, mas muitos comemoram com alegria e confraternização familiar. Nesta Páscoa, o que me fez acender a luzinha vermelha do subconsciente foi o flagelo da seca, o sofrimento de milhares de irmãos sertanejos que talvez nem lembrem que acabamos de reviver o aniversário de morte e ressurreição de Cristo. O calvário dessa gente não acaba nunca. Ficarem livres da crucificação parece ser um sonho inatingível. Que sofrimento pode ser maior para um ser humano do que não ter água para saciar a sede da família, dos pequenos rebanhos, chuva para molhar as lavouras que lhes dão o sustento diário? Que cruz pode ser mais pesada para carregar que ver nada brotar da terra esturricada que fumaça pelo calor ardente do sol? Desde a monarquia, o tempo se foi e nada fez mudar o discurso eleitoreiro que a cada ano satura mais o ouvido do sertanejo. Pelos idos de 1850, o imperador d. Pedro II, em visita ao semiárido cearense, afirmara: ?Venderei até a última joia da coroa, mas solucionarei o problema da seca no Nordeste?. Nada além de uma bravata que continuamos ouvindo até hoje. Mais de um século e meio depois, o então presidente Lula, no início do seu primeiro governo, ultrapassou todos os limites da demagogia e da leviandade ao repetir, também no Ceará, a mesma frase dita à época pelo o imperador apenas trocando algumas palavras: ?Venderei a última joia de minha coroa para que nenhum nordestino morra de fome!?. Entre a expressão ?emocionada? de d. Pedro II e o cinismo do Lula, passamos pela Velha República e a Era Getúlio ? a primeira redemocratização ?, a ditadura militar e mais redemocratização até chegarmos ao século 21 ouvindo a mesma lorota eleitoreira, o velho filme protagonizado pela desgraçada da fome, da miséria resultado da seca que teima em estender o martírio do povo nordestino. Nunca é demais lembrar que entre todos os Estados do Nordeste, Alagoas é geograficamente o mais privilegiado em relação ao acesso à água. A região considerada mais crítica, o Sertão causticante é cortado pelo Rio São Francisco, daí se entende que, o mínimo de esforço político entre tantos governos que passaram, a seca continuaria a existir, mas o sofrimento do sertanejo não teria os mesmos requintes de crueldade. A Adutora do Sertão é uma esperança, mas não esqueçamos que foram necessários vinte anos para concluir apenas 25% da extensão total.