Opinião
A ANTEVIS�O DE UM PROCESSO TRANSFORMADOR
De repente, lembranças. Consulto o passado tentando reunir cenas que marcaram de maneira especial minha infância e adolescência na cidade de Penedo. O tempo não apaga, apenas adormece. Realizava o curso ginasial (hoje, fração do curso fundamental) no Ginásio Diocesano daquela cidade. Minha família e a religião mantinham laços muito estreitos; a participação nos atos litúrgicos da Semana Santa era habitual. Era o final de um período em que a missa era rezada em latim e cantos gregorianos eram entoados. E na Quinta-Feira Maior a cerimônia do lava-pés chamava a atenção dos adolescentes. É desse ato litúrgico que vou falar. Um ano, e já não preciso qual, na hora da ceia, minha mãe comunicou: ?Dona Zoraide indicou seu nome para participar da cerimônia do lava-pés na missa de quinta-feira. Já respondi que sim?. No momento, estranhei a escolha. Se devia me preocupar, não sei. Mas que as consequências dessa aceitação me atingiram em cheio, não tenho a menor dúvida. No dia seguinte, fui proibido de jogar futebol descalço no campinho ao lado da igreja do Rosário. E durante uma semana inteira, minha mãe lavou meus pés todas as noites, ou melhor, raspou-os com pedra sabão, para retirar a crosta endurecida que se formara na face plantar. Três ensaios e lá estávamos os 12 estudantes escolhidos, representando os apóstolos de Jesus. O bispo conduziu a cerimônia. Suei em bicas; o manto branco que vestíamos era leve, mas a responsabilidade era grande sob centenas de pares de olhos, inclusive o olho crítico de minha mãe. Francisco, o papa reformador, fez voltar à tona minha história, já tão bem assentada no subconsciente. Repetiu o ritual santo numa prisão de jovens infratores. Dois rapazes e duas moças, alguns deles de outra religião. Ecumenismo na prática. Palavras sem exemplo são tiros sem balas. E seguiu-se a mensagem dada aos jovens: ?Não percam a esperança. Com esperança, vocês podem sempre seguir em frente?. Tento algo significativo que possa dizer da admiração e respeito que tenho pelo novo pontífice e só me vem à mente um trecho de Santo Agostinho: ?Não é possível dizer-te sempre coisas novas, nem te é necessário ouvi-las. O que importa é que sejas sempre novo, que te desprendas cada dia do homem-velho, e que cada dia tornes a nascer, a crescer e a progredir?. Arrisco um resumo da filosofia do papa Francisco: sempre ao lado dos pobres, por um mundo melhor, mais justo e mais humano.