Opinião
QUEM TEM MEDO DOS ETs
Os donos do mundo têm medo de extraterrestres. É isso mesmo que vocês leram. É o que se pode inferir de um relatório elaborado no último Fórum Econômico Mundial, realizado em janeiro último em Davos, na Suíça. O relatório é fruto de uma rodada de debates entre cientistas promovido pela revista Nature. Não se trata, portanto, de delírios. É coisa séria. Na opinião dos participantes, muito séria. No pior cenário, os aliens seriam maus. Ou, talvez, apenas superiores em inteligência e tecnologia, capazes de impor uma nova ordem ao planeta Terra. A mera possibilidade de ver abalada a segura ordem mundial faz chefes de Estado suar, põe líderes religiosos de joelhos, generais tremem dentro das fardas, banqueiros gelam sob os Armani. Não é pra menos. Na História, todo contato com civilizações mais bem aparelhadas provocou transformações profundas na sociedade. Algumas catastróficas para o povo, outras, apenas para os governantes. Agora deixemos de lado essa imaginação e aterrissemos, seguros, em nosso cantinho ensolarado do Brasil. O que seria ameaçador para esse pequeno Estado, esquecido na vastidão do planeta? Para a imensa maioria do nosso povo, que vive submerso na linha da pobreza e sem oportunidade de mudar de vida, o pior cenário seria a pura e simples manutenção perpétua do estado de coisas atual. E para os donos do lugar, quais seriam as ameaças? Por aqui, a disputa do poder político se dá entre iguais, todos membros da mesma casta. No poder econômico é ainda pior: essa disputa simplesmente não existe. Estão ausentes as forças que fazem a dinâmica econômica e social, não há competição, mobilidade social nem alternância real de poder. Na base da sociedade, atraso e estagnação; na cumeeira, uma elite amolecida, que faz da ausência de competição a garantia de sua manutenção infinita no comando de fato do Estado. Isso não parece incomodar aos que tem à mão os instrumentos para modificar a situação. É compreensível. Uma modernização da economia, seja, por exemplo, através da chegada de indústrias ou da implantação de um polo de tecnologia em nosso Estado, provocaria um abalo nessa situação. Primeiro, ensejaria a formação de uma nova elite, que, evidentemente, disputaria prestígio e poder com a já consolidada, despreparada para enfrentar esse tipo de competição em um jogo limpo. Também viabilizaria o surgimento de uma nova classe média, menos dependente da sacarose e menos ávida por lotes no serviço público. Na esteira, uma massa popular menos sujeita a ser comprada com as migalhas dos políticos clientelistas. Teríamos uma mais cidadãos que pensam, questionam e cobram. E isso é um perigo real, como são os aliens para os líderes planetários. Calma, porém. Nossos líderes têm se demonstrado muito eficazes para deter qualquer tentativa de invasão. Aqui, projetos de desenvolvimento não se criam, indústrias são convencidas a se instalar nos Estados vizinhos, planos para polos tecnológicos são abatidos na prancheta, sementes de mudança morrem de sede no deserto. Para nós, lunáticos incorrigíveis, loucos para ver essa estrela radiosa refulgir ao sorrir das manhãs, resta a opção de pendurar faixas no porto, no aeroporto e nas fronteiras do Estado: Sejam bem-vindos, alienígenas!