Opinião
O ESTETOSC�PIO E O MINIST�RIO P�BLICO
O diagnóstico correto das doenças sempre foi o primeiro desafio a enfrentar na busca pela cura dos males que afligem o homem. Hipócrates, dito pai da medicina, há cerca de 2.400 anos, era já um homem prático: propôs pegar o paciente pelos ombros e pô-lo a ?chacoalhar?. Assim, um bom auscultador poderia ouvir-lhe os sons produzidos pelo peito. Hipócrates também criou o método pelo qual o examinador aplicava o ouvido diretamente ao precórdio do paciente para ouvir-lhe tanto o coração quanto os pulmões. Somente em 1816, a medicina sofreria uma revolução na procura pelo diagnóstico, com a criação do estetoscópio pelo médico francês René Laennec, o qual ,atrapalhado sem conseguir auscultar o tórax de uma paciente muito obesa, de seios fartíssimos, pegou algumas folhas de papel, enrolou-as em forma de cone e encostou-o na exuberante mama: assim, conseguiu ouvir coração e pulmão da distinta senhora como ninguém jamais ouvira. Como nas horas vagas, além de talentoso flautista era também engenhoso carpinteiro, logo moldou o primeiro estetoscópio em madeira e passou não só a usá-lo, como a difundi-lo (nobre e inviolável preceito da ciência: a disseminação do conhecimento). Todavia, teve muitos adversários, como um professor de medicina que menosprezou seu invento, ao orientar seus alunos: ?Deus nos fez os ouvidos para ouvir: usem as orelhas e não os estetoscópios!?. Não foi só o professor, a sociedade médica da época não deu muita importância à nova invenção, achando-a simples demais para constituir-se em um avanço científico. Até que, finalmente, um renomado obstetra ouviu os batimentos fetais em uma gestante importante. A medicina atual incorpora avanços extraordinários, tanto na área do diagnóstico quanto na terapia ? uma das razões para o significativo encarecimento dos procedimentos médicos ?, mas o simples estetoscópio de Laennec, aperfeiçoado, continua tendo o seu lugar na avaliação inicial de diversas patologias: todo estudante de medicina deveria ter por obrigação saber o seu uso. A eterna busca pela cura dos males da sociedade, inevitavelmente, passa por um diagnóstico eficiente, objetivo e principalmente, independente. Somente alcançado o diagnóstico correto, se obtém o tratamento adequado. Torna-se inexplicável para nós, vítimas das doenças e patologias sociais, em suas diversas manifestações, cada vez mais agressivas, não podermos contar com o Ministério Público em seu combate, pois, como afirmava A. Murri, ?a luta contra a criminalidade organizada é muito difícil, porque a criminalidade é organizada, mas nós não?. Data permissa, a sociedade agradece e sente-se contemplada com o empenho das polícias para trabalhar mais sem exigir maiores ganhos materiais ou quaisquer outros. Contudo, acredita que a participação do Ministério Público é indispensável nessa luta. Afinal, embora existam avanços significativos, ainda estamos no Brasil de Millôr Fernandes que afirmava: ?e quando disserem que o crime não compensa, você tem que lembrar que isso é porque, quando compensa, não é crime?.