Opinião
A velha fera e seu feroz apetite
Terminou ontem, à meia-noite, o prazo para a entrega para a declaração de Imposto de Renda referente ao exercício de 2013, ano-calendário de 2012. No começo da tarde, muito antes do encerramento do período de recepção dos documentos, a Receita Federal já divulgava a (esperada) agenda de restituições, cujo primeiro lote deverá ser disponibilizado em 17 de junho. Talvez o tributo mais emblemático do mundo, o Imposto de Renda tem uma longa história, com seu nascimento sendo registrado no ano 10 em mais uma invenção chinesa. Diz a Wikipédia que o imperador Wang Mang, da dinastia Xin, foi o autor dessa brilhante ideia ao determinar o abocanhamento ?de 10% dos lucros de profissionais e trabalhadores especializados?; não se sabe se foi em decorrência disso, mas o monarca em questão foi derrubado no ano 23, informa a mesma fonte. Os escribas garantem que esse tipo de tributo apareceu no Brasil por volta de 1843, mas não vingou de primeira. Reapareceu entre 1864 e 1870 com o mote de financiar a Guerra do Paraguai (mas teria amealhado pífios cobres). Enfim, a partir de 1922, através da Lei 317, o bicho começou a tomar pé e virou o famélico felino de nossos dias. A simbologia leonina aparece em 1979, através de uma campanha publicitária onde apresentava o personagem como sinônimo de ?um animal justo; leal; forte, embora não ataque sem avisar; manso, mas não bobo?. Esqueceram-se de checar o conhecido fato de que quem caça, por excelência, nas alcateias, é a leoa. O da juba, como quem não quer, querendo, fica mais no bem-bom, esperando que as damas façam o serviço duro ? mas aí é outra história. Fato é que, há 34 anos, esse símbolo ruge sobre as consciências brasileiras, abocanhando parte considerável dos salários de boa parte da população. Diz-se que tal tributo deveria ser rebatizado como ?Imposto do Salário?, já que é nesta seara que a caça é implacável, pois a remuneração do capital tem lá suas defesas. Aos assalariados, mordidos sem dó, resta aguardar a devolução dalgum refugo; com sorte, virá algum resto de carne no osso regurgitado.