Opinião
ANILDA LE�O E A CADEIRA 26
Mestre Graça era então o inspetor de Educação das Alagoas. Ao visitar aquela escola, sua atenção foi despertada por uma menininha magricela, que polarizava todas as atenções. Perguntou à professora Marli quem era aquela criança de olhos esbugalhados, aproximou-se, afagou seu cabelo desgrenhado, e, parece que antevendo o futuro, declarou: ?Ela tem a carinha de santa do pau oco. Cuidado com ela?. Alguns anos depois, ao completar 12 anos, após deslumbrar parentes e amigos, começou seu aprendizado no bel-canto com a pioneira professora Yasinha Calmon. Em seguida, entrou para o Conservatório de Música, aberto por Venúzia Melo. Registro vocal: soprano lírica. Concomitantemente, desenvolveu a arte da declamação com Aida Wucherer. Adolescente, suas atitudes independentes, desprovidas de preconceitos e tabus, seu espírito indômito, em uma terra atrasada e preconceituosa, a fizeram vítima de repetidos castigos, advindos de uma família extremamente conservadora. Manteve, contudo, suas aspirações pessoais e na década de 70, em plena ditadura militar, partiu para o Leste Europeu, em busca de suas utopias sociais, a contragosto de Moliterno, um conservador, todavia, liberal, afetuoso e bonachão. Fez teatro e cinema com alagoanos apaixonados pela arte dos irmãos Lumiáre, e também com gente importante da Rede Globo. Escalada para interpretar Maria Bonita em filme nacional relevante, foi reprovada porque não segurava a espingarda com a ferocidade requerida. Recolocada para atuar como coiteira de Lampião, teve momento difícil no papel, pois, falecida a personagem, a defunta rodeada por carpideiras não parava de rir perante as câmeras. Na década de 80, com o apoio do governador Suruagy, fundou o Conselho Estadual de Defesa da Mulher (Cedim). Escreveu livros de poesia, contos, memórias, foi articulista da Gazeta, sempre com uma preocupação básica: o ser humano, principalmente os mais despossuídos. Há alguns anos, já bastante idosa, mas ainda buliçosamente vivaz, em cima de descoberto caminhão, cantou no coral do bloco carnavalesco Pinto da Madrugada, horas a fio , sob escaldante e inclemente sol, até o fim do desfile. Conheci Anilda Leão há tempos. Quando recém-chegado a Maceió, atendi Carlos Moliterno, seu marido. Restabelecido, compartilhamos uma fraterna amizade que perdurou por 35 anos. Moliterno foi aclamado e duradouro presidente da Academia Alagoana de Letras e Anilda, a ocupante da Cadeira 26, deixou um legado pessoal que inclui além de suas obras e sua trajetória, sua filha Luciana, também cantora lírica, e seu filho Carlos Alberto, poeta premiado como o pai. Cícero afirmava: ?A memória diminui... se não é exercitada?. Cultivar a memória daqueles que fizeram de nossa terra um local mais civilizado e mais aprazível de viver, é não só uma satisfação, como uma obrigação e um dever. Isso só nos eleva, enriquece e engrandece. A posse na Cadeira 26 de Anilda Leão, que enalteceria qualquer um, não poderia deixar de ser, antes de tudo, uma modesta, mas sincera homenagem a sua obra e a sua provocante personalidade, que agregavam uma série das melhores qualidades do ser humano: sensibilidade, solidariedade, alegria de viver, criatividade, humildade e primorosa inteligência.