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Opinião

OCEANOS DE SEGREDOS

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Com a nomeação de Guilherme Afif para ocupar o 39º ministério, d. Dilma aproxima-se do cabalístico 40, número que ganhou fama com a novela oriental conhecida por Ali Babá e os Quarenta Ladrões. Todos lembram do Afif na época da primeira campanha para presidente, pós-ditadura. Jovem ainda, pinta de galã de cinema mudo, tinha cara de quem tomava banho com uma frequência aceitável, escovava dentes e, talvez, evitasse constranger a entourage com ruídos e odores intestinais selvagens. Enfim, fisicamente palatável, não parecia arrogante. Durante algum tempo, as pesquisas de opinião mostravam a seu favor um percentual promissor de intenções de voto. Digamos que tinha um discurso modernoso, conservador, evidentemente valorizando aquelas coisas que ?ideólogos? professam detestar: o Estado pouco intervencionista. Naturalmente, como todo e qualquer candidato que se preze, criticava a imoral concentração de riquezas, as diferenças regionais, o abandono da população à própria sorte. Para ele, o sistema de saúde estava falido. Urgiam medidas que privilegiassem o acesso amplo a consultas e exames. Não era possível, dizia, tolerar que intermináveis filas se formassem para consultas com simples psiquiatras ou pediatras. A novel Constituição Cidadã (aprovada sob a indignação e apostasia dos petistas), para Afif, precisava tornar-se uma realidade. A Segurança, melhor dizendo, a insegurança, era qualquer coisa de delinquente. Havia uma inflação que derrotara os planos de Funaro/Sarney. Àquela altura, batia a casa de 60-80% ao mês. Denúncias de incríveis safadezas aflorando no coração do poder, leia-se, filhos e genro de Sarney, eram esgotos a céu aberto. A bem da verdade, vivíamos sob a égide do ?Deus proverá?. O fato é que o deputado Guilherme Afif ? como todos os outros candidatos ? tiravam proveitos do inesgotável manancial de indigências moral e financeira do governo que se encerrava. Duraria pouco a lua de mel de Afif com o eleitorado. Rapidamente, os opositores fariam chegar ao público a desproporção entre o aparente gigantismo do discurso e o nanismo da prática. Irônico, Delfim Netto (hoje, disputando com Nelson Rodrigues o posto de maior guru das esquerdas) fulminaria Afif com uma quase charada: ?Um automóvel estaciona vazio na porta da Câmara: é o Afif chegando?. Corações humanos são oceanos de segredos. Crítico impiedoso do PT e Cia, depois de cavalgar picos e vales verdejantes, atual vice-governador de São Paulo, certamente o 39º ministro da presidente Dilma irá levar experiências e manhas de político/empresário. Cientistas políticos, ciganos, cartomantes, psicólogos, historiadores, sociólogos, curiosos e outros palpiteiros, inutilmente, tentam decifrar essa ubiquidade/ambiguidade.

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