Opinião
Quem � o dono do continente perdido?
Na semana passada, uma notícia científica ganhou espaço na mídia brasileira. Efêmeras reportagens deram conta da descoberta de um ?continente naufragado? no Atlântico Sul, distante a 1,5 mil quilômetros do Litoral Sudeste do Brasil. De imediato, veículos de comunicação do RJ reescreveram a manchete, ?esclarecendo? que a ?Atlântida brasileira? havia sido localizada a 1.500 quilômetros do Rio de Janeiro. Na base desse ato falho na confecção do título à reportagem científica, está o mesmo sentimento que exaspera significativos grupos que buscam agarrar só para si valores indiscutivelmente nacionais, como os royalties provenientes da extração do petróleo em alto-mar. No caso das possibilidades dessa existência, é evidente que sua extensão não poderia ser confundida com um ponto. Pode-se apostar antes mesmo da divulgação dos dados completos da pesquisa que, confirmando-se a existência desse maciço continental, várias distâncias de 1,5 mil km podem ser medidas dos diversos pontos da massa rochosa submersa a outros diversos pontos do litoral brasileiro ? daí, a pergunta: por que balizar apenas por um Estado? A resposta é clara. O chauvinismo, como bem resume as enciclopédias, é a definição de ?todo tipo de opinião exacerbada, tendenciosa, ou agressiva em favor de um país, grupo ou ideia?, termo derivado do nome de um francês, Nicolas Chauvin, soldado de Napoleão, conhecido por uma paixão desbragada por seu país e que, pela França, nada temia, nem o ridículo. O desenvolvimento industrial e crescimento econômico, em verdade, é o cerne da questão. Para essa visão deformada, apenas os Estados já enriquecidos podem e devem continuar a crescer. Quando o Norte e o Nordeste, por exemplo, tentam libertar-se das amarras, usando um dos poucos meios disponíveis, são atacados como promotores da ?guerra fiscal?. Assim, não é estranho que a provável localização dos restos fossilizados de um continente afogado nas imensidões do Atlântico Sul seja, desde logo, anunciada como se fosse a extensão de um único Estado brasileiro.