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Nº 5691
Opinião

RECORDA��ES

Não tem formação acadêmica, é apenas mulher, catedrática na pedagogia da vida, esposa, mãe – plenamente esposa, dedicadamente mãe. Nasceu e se criou na simplicidade de uma modesta fazenda do interior, numa casa grande encravada entre serras, pedras e curr

Por | Edição do dia 14/05/2013 - Matéria atualizada em 14/05/2013 às 00h00

Não tem formação acadêmica, é apenas mulher, catedrática na pedagogia da vida, esposa, mãe – plenamente esposa, dedicadamente mãe. Nasceu e se criou na simplicidade de uma modesta fazenda do interior, numa casa grande encravada entre serras, pedras e currais, tão comum no cenário sertanejo. Aprendeu na infância, bem antes de atingir a adolescência que a vida iria lhe exigir muito sacrifício, renúncia e dedicação para superar surpreendentes desafios. Logo cedo, ainda despertando dos sonhos e encantos da juventude, perdeu prematuramente a sua mãe, enquanto o pai, por não ceder à exploração dos bandidos da época, foi ameaçado e teve o seu patrimônio dilapidado pelos carrascos do cangaço. Ao não acatar os recados do chefe do bando, Corisco, por não ter como enfrentar as repetidas invasões violentas à sua propriedade e aos filhos, foi obrigado a vender por qualquer preço e abandonar suas terras e as poucas cabeças de gado que ainda possuía. Com poucas economias no alforje, partiu para a cidade onde comprou sua nova casa. O desgosto do velho Manoel Amador foi o suficiente para perder o prazer de viver depois do óbito da esposa e a distância forçada do seu torrão. Foi-se a alegria, venceu a tristeza. Morre logo, deixando para trás cinco filhos homens na maioria menores de idade e uma única filha mulher que acabara de casar muito jovem. Com o destemor de uma sertaneja de fibra, sem a proteção dos pais, mas contando com o apoio incondicional do marido, Nem, como era carinhosamente chamada pelos irmãos, trouxe-os para a sua casa e deles cuidou, educou e cada um foi para o mundo preparado para vencer. Os filhos foram chegando, quatro ao todo, que receberam desta mãe muito amor, disciplina, austeridade, presença constante, acompanhando-os em cada passo, na infância, adolescência e em todas as etapas decisivas. Filho não ia para a escola com farda amassada, nunca faltou o lanche nutritivo na mochila e os livros com capas cuidadosamente envelopadas para durarem o ano inteirinho com cheiro de novo. São recordações de um tempo inesquecivelmente puro, feliz, uma vida modesta, digna e vivida com intensidade. Os anos passaram, muita água rolou sob a ponte na longa trajetória, mas a gente nunca esquece que os ensinamentos de uma boa mãe marcam para sempre a nossa personalidade. Agora, aproximando-se dos 96 anos de idade, a fotografia da sua memória só projeta lembranças dos duros momentos do passado, de uma vida construída contrastantemente entre amor e sacrifício. No presente, nos resta encarar o transtorno que o Alzheimer tem provocado no seu cérebro. Mas, mãe, saiba que seus irmãos, filhos, netos e bisnetos somos infinitamente gratos a Deus por você ser ter sido sempre a mãe de todos nós.

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