Opinião
PASSOU PERTO
Grave não foi, mas poderia ter sido uma tragédia para o João. O João sou eu. Estava tudo normal. Zanzando no shopping, eu e minha tão querida e amada mulher. Escada rolante subindo e eu junto. Olhei para trás e vi uma loja onde queria ir. Disse à Rosinha, vou até lá embaixo. Fique fazendo alguma coisa. Volto já. Desci, entrei na loja de colchões, sentei em um e perguntei o preço. Em seguida, perguntei do outro. Como colchão se prova deitado, virei para trás e ia deitando. Que deitar que nada. Meti foi o fundo da cabeça em uma coisa dura. Vidro grosso, que se espatifou em pedaços grandes e pontudos. Fora o susto, não tive nada. Ainda pedi desculpas ao cara que colocou aquela prateleira mal colocada e depois fiquei pensando em uma sequência sinistra. Se uma ponta de vidro daquelas se cravasse no meu pescoço? Primeiro impulso seria puxar o pedaço. Ai o sangue velho ia jorrar aos borbotões (palavra bonita). O cara dos colchões, assustado e preocupado com o colchão de três mil e novecentos reais, diria: o que foi, o que foi? Cada vez que eu quisesse falar, o sangue esguicharia. O cara correria para a porta gritando socorro, socorro e pensando: ?perdi meu colchão?. O sangue jorrando e João lascado de medo pensando: ?desta vez, eu vou?. Passando o filme da vida rapidinho, meus filhos, minha mulher, meus irmãos, amigos, todo mundo. Lá vou eu deixar esta vida tão boa e maravilhosa. Os bens materiais não estavam nestes flashes, pois na hora da verdade, só o essencial importa. Nisso, a vista já piscando, escurecendo, gente às pampas na porta, todo mundo curioso, perguntando: ?o que foi, o que foi??; mas ninguém ajudando. Alguém chamou o Samu, que vem: ?uauauaua?; e não anda, que nosso trânsito é uma merda. Nessa altura, João já fraco, sonolento, com frio, entra em choque, e o colchão ensopado, perdido, o de três mil e novecentos reais. Prejuízo; o cara disfarça, quase chorando. A caminho do nosso belo pronto-socorro, é dado o último suspiro. Pronto. Finito est. Neste tempo, minha mulher, já puta da vida pela minha demora ? tinha acabado de comprar umas meinhas para nossa netinha, me telefona. O enfermeiro atende ao celular. João, aonde, por Deus, você está? Ela é assim, fala muito em Deus; é um amor. Aqui não é o senhor João, não. A senhora é o quê dele? Esposa, diz ela assustada. O que foi, meu Deus? Senhora, diz o enfermeiro todo solene, aconteceu um pequeno acidente e seu marido está ferido. Pequeno acidente um cacete, pensa João já do outro lado e ferido... tou morto, porra, grita sem ninguém ouvir. Daí em diante, é só tristeza. A notícia se espalha. Comentários de quem gosta do João. Era tão bom, tão alegre, de bem com a vida, trabalhador, bom pai, bom marido (mais ou menos), bom amigo. Estava aprendendo a tocar gaita. Já tava um danadinho. Um sujeito fantástico, diria alguns. A modéstia me impediria de concordar. Luto na firma e preocupação. Será que o salário vai atrasar. Boto no pau. Velório como tantos outros, com as mesmas risadas, piadas e pressa dos que foram, para não pegar o inferno, digo a Fernandes Lima descendo às cinco e meia. Laurinho, meu querido irmão, mal podia tocar violão e cantar no funeral. O cara já e um manteiga derretida e para o irmãozinho... Tragédia total, principalmente para mim. O resto, não quero nem pensar, que já tou ficando triste. Estou vivo, bonito, saúde quase perfeita, mais atento e, fora os problemas, como diz meu querido amigo Vinicius Tigre, está tudo bem. A vida é uma vela acesa ao vento, alguém já disse. Um sopro e tudo se apaga. Vamos viver de bem com ela, em paz com nós mesmos e com os outros.