Opinião
M�DICOS ESTRANGEIROS E OS PACIENTES BRASILEIROS
No Rio de Janeiro,que será a principal sede das Copa das Confederações, do Mundo e das Olimpíadas,eterno cartão postal do Brasil,existem seis hospitais públicos federais. A situação de funcionamento desses hospitais mostra, exemplarmente, como a questão da saúde pública é tratada nacionalmente desde sempre. Há poucos meses,no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), formavam-se filas quilométricas para o atendimento à população, que dormia e ainda dorme em filas,tentando marcar uma consulta.A situação foi amenizada, pelo menos na aparência, pela contratação temporária de médicos tão qualificados para os cargos como os salários praticados. Na UTI pediátrica do Hospital Cardoso Fontes, vários leitos foram fechados porque médicos se aposentaram e não foram substituídos. A emergência do Hospital Federal de Bonsucesso,na zona norte, funciona há dois anos provisoriamente em contêineres instalados em uma área próxima ao estacionamento do hospital. Entre 2005 e 2012, o Rio perdeu mais de 7 mil leitos do SUS, o que corresponde a 18% do total de vagas públicas. Fato repetido por todo o País. Para o Sindicato dos Médicos, seria necessário contratar pelo menos 1,5 mil profissionais para substituir os aposentados da rede pública,mas não se realizam concursos. A Argentina tem 3,2 médicos por mil habitantes. Espanha e Portugal, 4. Cuba, 6. Esses países enfrentam profunda crise e existe grande desemprego.O Brasil tem 1,8. Faltam médicos em várias regiões, principalmente no interior,onde as condições de trabalho são precaríssimas e os contratos de trabalho são indecentes.Em município alagoano existia um único médico para atender, diariamente, a cerca de 300 pacientes no hospital. A situação era tão caótica que, de tanto ver sua própria vida ameaçada pelos pacientes e familiares estressadíssimos, o profissional pediu demissão. Quando os médicos brasileiros vão para algum outro país, são obrigados a se submeter a exames de revalidação rigorosos, o que lhes permitirá, ou não, exercer a profissão ali. No Brasil, existe o Exame Revalida, que deveria ser estendido a todo médico recém-formado no país. Na Inglaterra,onde mais de 30% dos médicos são estrangeiros,existe uma rigorosa revalidação dos diplomas e os salários são compatíveis com as responsabilidades. O sistema de saúde pública britânico é motivo de orgulho nacional. O governo britânico aumenta ano a ano seu investimento em saúde,ao contrário do Brasil,onde os números mostram retração, enquanto a população cresce. Em 2002, submeteram-se ao Revalida 182 médicos cubanos,20 foram aprovados. A questão dos seis mil médicos cubanos virem para o Brasil, não pode ser encarada pela faceta idiota da ideologia, da xenofobia e do corporativismo, mas sim pela possibilidade de fortalecer ou não o SUS no atendimento digno à população. Inicialmente, todos os médicos estrangeiros devem se submeter ao Revalida. Depois, vem outras questões,como salários dignos,estrutura,condições de trabalho ? e se isso for providenciado, os médicos brasileiros aparecerão ? para que as soluções propostas atualmente não sejam só mais um engodo temporário. As entidades médicas apelam há muito tempo para que se crie uma carreira de Estado no serviço público para atuar na atenção primária à saúde, para ocupar com médicos brasileiros capacitados as regiões mais remotas e desfavorecidas do País,onde eles deveriam dedicar horário integral aos pacientes do SUS. Apelos ignorados e desprezados. É um fato: a qualidade e a dignidade da assistência médica ao ser humano passa pela dignidade e pelo respeito com os quais o médico possa atuar, incluindo as condições de exercício de sua profissão.