Opinião
O carnaval dos nomes sem rumo
Em nossa edição do domingo passado, foi abordada a longa agonia dos outrora belos imóveis do centro de Maceió. Convém lembrar que tratam-se de uns poucos remanescentes, teimosos sobreviventes de um cenário outrora expressivo do qual foram extirpados a golpes de picareta palacetes impecáveis como o Hotel Bela Vista e o antigo Palácio Provincial, sem falar num casario incontável. Mas não é só o patrimônio histórico material maceioense que sofre com o abandono e a demolição implacável. O nosso rico acervo cultural, intangível, é flagelado com igual intensidade. A toponímia alagoana que o diga, pois apesar de razoavelmente respeitada no interior, é devastada cotidianamente em Maceió. As autoridades municipais solenemente ignoram formas e conteúdos dos nomes das ruas, praças, bairros da capital alagoana. Alguns bairros simplesmente sumiram do mapa, como a Coreia. As praças, além do descuido perene, são descaracterizadas sem cerimônia, e uma delas, a Moleque Namorador, foi desvirtuada, perdendo a forma circular que orientava, nos tempos do frevo resgado, as espirais concêntricas dos passistas. Escolas e outros prédios públicos também mudam de nome com incrível facilidade. Dos nomes das ruas nem é bom falar. Por exemplo, além da presença em obras de Graciliano Ramos e Jorge de Lima, dentre outros nomes consagrados, a Rua do Sol é cantada até por Chico Buarque (?Eu vou me mandar de trenó/Pra Rua do Sol, Maceió? ? versos de Bye Bye Brasil). A primeira artéria urbanizada à beira-mar em Alagoas foi batizada como Avenida da Paz, em tributo à esperança mundial pela paz na terra ao fim da Primeira Grande Guerra, em 1918. Essas duas denominações, ambas de grande valor cultural e histórico, têm sido menosprezadas e bombardeadas frequentemente por tentativas de supressão desses nomes tão significativos. São apenas dois exemplos, dentre muitos. É ignorada pelo Poder Público a própria devolução, por força de lei municipal, em 1990, dos nomes históricos originais a logradouros como Rua do Sol, Avenida da Paz, Rua da Alegria, Rua Augusta, Rua do Livramento... Em benefício do quê? Da desmemória ou da desorientação?