Opinião
BREVE REFER�NCIA � LITERATURA ALAGOANA
Há dois meses fui convidado por uma escola particular para proferir uma palestra sobre a literatura alagoana. Relutei, mas a direção insistiu. Afirmava que os alunos tinham muito interesse no tema e que já haviam levado profissionais de outras áreas para um diálogo produtivo sobre diversos assuntos. O tema a mim destinado era amplo e o tempo curto para uma análise mais profunda. Escolhi três nomes como espelho, modelo e exemplo: Aurélio Buarque de Holanda, Graciliano Ramos e Jorge de Lima. Após os cumprimentos protocolares, gostei do que vi. Um auditório cheio, atento e, desde o primeiro momento, disposto a participar. Tive direito a dez minutos de exposição. E aí apareceu a primeira interpelação. O aluno afirmou que nas aulas de Literatura já haviam estudado os três personagens citados. Conheciam o dicionário do Aurélio e alguns contos de sua autoria; haviam lido Vidas Secas; e estavam estudando a poética de Jorge de Lima, um pouco da Invenção de Orfeu. E o que desejavam, perguntei? A resposta deles: ?haviam realizado uma reunião prévia e queriam conhecer um pouco da obra de Lêdo Ivo, falecido em dezembro?. Felizmente, na preparação da palestra, eu havia revisto ? em linhas gerais ? a vida e a obra do poeta. Um homem culto, inquieto, polêmico, que jamais esqueceu sua origem, sua terra natal. Costumava dizer que era fruto do ambiente nordestino. Busco um dos cartões de minhas anotações e repito uma de suas afirmações: ? ?E por um momento me sinto vivo e completo, na minha ancestralidade histórica e cultural, fruto consumado do arcadismo português com a antropologia dos caetés alagoanos, que ao devorar o bispo dom Pero Fernandes Sardinha, na verdade queriam assimilar toda a Europa?. Comentei que se tratava de uma autoanálise; quando ele fala do arcadismo português, refere-se a uma corrente literária que se caracteriza pelo cenário da vida bucólica, da natureza, e, paralelamente, num outro lado, à ferocidade dos índios caetés que habitavam a região miguelense. Lêdo Ivo condensava as duas vertentes: convivia cordialmente e num trato educado, mas, se pisavam no seu calo, reagia ironicamente e não poupava críticas. Meu primeiro contato com Lêdo Ivo ocorreu na Academia Brasileira de Letras, numa caravana da Fundação de Ação Cultural que, na época, era dirigida pelo médico escritor Antônio Arnaldo Camelo. Nessa ocasião, ocorreu o relançamento de seu romance Ninho de Cobras e o lançamento da obra biográfica da escritora Leda Almeida. Em várias outras ocasiões, participei de almoços oferecidos ao poeta pela artista plástica e intelectual Tânia de Maya Pedrosa. Ele contou, numa dessas ocasiões, que quando vinha a Alagoas queria comer sururu, esse molusco do qual ? só em pensar ? excitava suas papilas gustativas.