Opinião
CI�NCIA, MEDICINA E VERDADE
Era o final de uma mesa redonda que já durava por quase três horas, dedicada ao tratamento do câncer de pulmão, enfermidade das mais letais, que acomete um milhão e duzentas mil pessoas a cada ano em todo o mundo e leva ao túmulo um milhão delas. Reunidos estavam quatro oncologistas internacionais importantíssimos, presididos pelo doutor Luis Shouhami, um notável brasileiro que chefia o Departamento de Oncologia da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. Diante das perguntas oriundas da gigantesca plateia de médicos especialistas nacionais sobre como conseguir melhores resultados no tratamento, que ainda não alcançados, mesmo com tantos avanços tecnológicos, os mestres internacionais (dois americanos, um francês e um indiano radicado nos EUA), foram unânimes: infelizmente, como a maioria dos casos ainda é diagnosticada em fase avançada, ninguém conseguia melhores resultados. Mesmo tendo mais de trinta anos de exercício da oncologia, esse é um momento em nossos congressos internacionais que sempre me emociona: ver aqueles mitos mundiais da medicina, autores referenciais de livros e compêndios médicos que ficam e ficarão na História, humildemente, reconhecerem que a medicina, e, portanto, o homem, tem limites e que ainda temos muito a aprender para superar os inúmeros desafios atuais. Assim foi a semana passada em Fortaleza, um total de 11 convidados internacionais conceituadíssimos reconheceram que a oncologia, embora tenha conseguido extraordinários avanços, ainda enfrenta desafios imensos, o que foi e é uma constante em nossos congressos médicos. A medicina e a ciência de um modo geral devem primar pela humildade em reconhecer que, por mais que tenhamos avançado, ainda engatinhamos em muitas situações. Reconhecendo a verdade, podemos arregimentar forças em busca de soluções novas e melhores resultados. O médico precisa ter essa percepção. Senão, perderá oportunidades de se atualizar e se adequar a uma ciência que dia a dia apresenta novos desafios e novas possibilidades de soluções. Humildade e sensibilidade são essenciais ? alerto os mais jovens. É o único caminho através do qual poderão agregar conhecimentos continuamente, já que os desafios são e serão sempre muito maiores que sua vã vaidade possa perceber. Nada mais anticientífico que a arrogância. É uma realidade que os médicos necessitam entender, para poder ajudar nossos pacientes com tudo que possamos utilizar em seu benefício, inclusive o auxílio de outros profissionais, a abordagem multidisciplinar. Como afirmava Rousseau, ?a verdade geral e abstrata é o mais precioso de todos os bens. Sem ela, o homem é cego; ela é o olho da razão. Por meio dela, o homem aprende a se conduzir, a ser o que deve ser, a fazer o que deve fazer, a caminhar rumo a sua verdadeira finalidade?. Pedro Nava, em sua obra Beira Mar, afirmava: ?Já sabia que a verdade de hoje pode ser o erro de amanhã...Que toda a Arte Médica estando em constante reformulação e reforma, tudo que é atual e moderno é duvidoso e esconde uma mentira ou um engano que os tempos vão tornar aparentes. Que a medicina é, assim, instável ? a construção duma cidade sobre solo em terremoto permanente?. A luta contra as doenças, pela saúde e pela vida, será sempre uma tarefa superior a ser melhor enfrentada por aqueles que têm essa consciência.