Opinião
QUASE ADEUS
Na velha Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra existe uma tradição secular ? a última aula a ser proferida por um renomado mestre, em face de sua aposentadoria, deverá ser ministrada pelo seu discípulo mais antigo e portador de destacados méritos. O costume acadêmico busca revelar: os ensinamentos passados pelos consagrados professores frutificaram no seio das novas gerações. Mais do que uma homenagem, ergue-se uma consciência de que a linha histórica da cultura e do saber será honrosamente mantida. O caráter empolgante do focalizado ato universitário está na forma de apresentação do cogitado discípulo. Deverá ministrar a aula com os mesmos gestos, a idêntica entonação de voz e igual maneira de ser do mestre homenageado que se despede. Todos os presentes recolhem a impressão ? tanto sua alma científica como seu perfil físico irão permanecer, para assegurar a continuidade histórica da Instituição. O fato caracteriza não propriamente um afastamento definitivo, mas uma sucessão prolongada por sentimentos e valores substanciais. Nas diversas instituições humanas ocorrem acontecimentos semelhantes. Na esfera da política, os líderes vitoriosos são seguidos pelos seus auxiliares, correligionários e admiradores. Na sua maneira de vestir e falar, em suas expressões costumeiras, em seus gostos e escolhas pessoais. O mais politicamente relevante se verifica na mesma forma de agir, por parte dos seus seguidores, em traçar estratégias e lutar pelo poder. O mundo sofre a influência indeclinável das imitações. E, todas os seres humanos, de alguma forma, seguem regras e modelos preestabelecidos. No ambiente acolhedor dos laços familiares se afirmam as marcas da herança. Os filhos seguem os passos das figuras dos pais, numa lógica de cumplicidades e de fortes exemplos. Dessa forma, se definem os caminhos regidos pelo signo das sombras protetoras e pelas atitudes contundentes que se perpetuam. Nos cenários imponentes de Coimbra, a cultura jurídico-penal do discípulo Manuel da Costa Andrade saudou a grandiosidade dogmática do mestre Jorge de Figueiredo Dias e, ao final, suscitou o simbolismo das amendoeiras que resistem ao tempo, vencem as estações e nos contemplam com bons e duradouros frutos. Ao observar o império desses sentimentos e as regras indomáveis que dão sentido à vida, resta-nos relembrar os candentes versos da canção popular brasileira: ?E se um dia eu me for, para onde Deus me levar, mesmo assim, meu amor com você vai ficar?.