Opinião
MEM�RIAS DE UMA GERA��O
Início dos anos 70, Brasil tricampeão mundial, primeira transmissão em cores da TV brasileira direto do México onde o escrete canarinho encantou o planeta com uma plêiade de craques. Indiscutivelmente, craques. Na música, Roberto Carlos emocionava corações apaixonados com Detalhes, letra do rei que marcou o início do romance de muitos papais e vovôs de hoje. ?...detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer...?. Nos embalos da lendária boate Areia Branca, alta madrugada, Paulo Sérgio, sob o ambiente entorpecido pelo tom da luz negra, dava ritmo para a dança da sedução entre casais bem coladinhos com o sucesso da música escrita pelo próprio: Última Canção. ?Esta é a última canção que eu faço pra você. Já cansei de viver iludido só pensando em você?. Lembranças dos bate-papos dos sábados à noite em frente ao Cine Luiz, do Cursinho Alagoano na praça da assembleia; do Cuba Libre no Castelinho da Avenida da Paz, constrastantemente ao nome, testemunha do primeiro atentado a bala contra o ex-deputado Walter Mendes e a senhora sua mãe. Da Middô, Uisquisito, Cavuco; do namoro ao ar livre entre Alagoinha e Lagoa da Anta, porto seguro para velhos fuscas, imponentes Galaxies Landau, Simcas Chambord, Opalas Comodoro ? espaço democrático para o amor, tinha vaga pra todos, não existia violência. Dos bailes aos domingos à noite na Portuguesa; das maratonas para chegar à Casa da Bahia e ao Zíngara Bar. Dos pensionatos e repúblicas dividindo quartos com grandes e bons amigos, agora médicos, engenheiros, advogados, empresários, jornalistas. Nossa geração também viu nascer a construção da duplicação das avenidas Fernandes Lima/Durval de Góes Monteiro para minimizar os já existentes problemas do trânsito. A capital, à época, tinha 263 mil habitantes e 457 veículos circulando. Quarenta e três anos depois, com uma população que cresceu para 1 milhão de habitantes e mais de 230 mil automóveis, a avenida é a mesma, sem investimentos para melhorar o fluxo desses milhares de usuários diariamente. Sequer projetaram alternativas viáveis no entorno. Não sei se existe tanto atraso em outro lugar do mundo, onde o principal corredor de tráfego da cidade, em pleno século 21 é igual ao mesmo espaço de quase meio século atrás. Creio que na República Democrática do Congo, Burundi, Malawi, países mais subdesenvolvidos da África, cuja renda per capita gira em torno dos $ 0,217, os gestores tenham uma visão menos desdenhosa com suas comunidades. Nesses anos, dezenove governadores e nove prefeitos da capital escreveram sua história política. Deputados, senadores que se ufanam pelas longas décadas de mandato são algumas centenas. Foi também na década de 70 que surgiu o projeto da Via Expressa, cuja extensão teria próximo de 18 quilômetros chegando até o cais do porto. Seria pista dupla com canteiro central. Seria, ponto final. Somos uma geração verdadeiramente ordeira, tolerante que mesmo sofrendo continuamos elegendo eles.