Opinião
De velhos fatos e dos sonhos reais
Saques, depredações e pilhagens espalharam-se pelo centro de São Paulo. O palácio foi cercado e suas grades exteriores, de ferro, foram arrancadas à mão pelos manifestantes que se espalharam por 40 quilômetros de ruas e avenidas. Ao todo, os arrastões deixaram uma pessoa morta, 127 feridas e 566 detidas. O parágrafo acima não reporta sobre as manifestações destes dias em São Paulo e, sim, sobre as manifestações que sacudiram a capital paulista em 1983. Há 30 anos. Quem se descuida da história, ou quer considerar que o agora resume tudo, corre o risco de fazer avaliações tão grandiloquentes quanto furadas. Já se disse que a história não se repete, a não ser como farsa. Seria estupidez achar que os tumultos desses dias de 2013 são a mesma coisa que as agitações de 1983. Há 30 anos, as coisas eram mais puras, menos manipuláveis ? e se restringiram praticamente à Grande São Paulo. Hoje, há um sentimento de big brother coletivo no ar e existem, sobretudo, as facilidades da democracia bem mais consolidada e da amplitude dos meios de intercomunicação. Há três décadas, o Brasil ainda padecia do regime militar (o general João Figueiredo estava de plantão no Palácio do Planalto) e um telefonema interurbano era um privilégio (naturalmente, nem se sonhava com telefonia celular; muito menos, redes sociais). E São Paulo foi inapelavelmente varrida pelas turbas revoltadas. A agitação que hoje sacode o país, articulada via redes sociais e turbinadas pelas grandes redes de comunicação, não é novidade. Óbvio que não é a mesma coisa que ocorreu em 1983, nem com as Diretas Já, menos ainda é a Revolta da Vacina... A novidade é a expansão nacional, explicada pela facilidade de intercomunicação, e as amplas possibilidades de manipulação política ? como pode ser testemunhado pelo simples acompanhamento ao noticiário. Mas novidade mesmo é se essa mobilização fantástica desses dias em curso conseguir separar o joio (os tumultuadores de rua mais os manipuladores de gabinete) do trigo (os incontáveis grupos que verdadeiramente defendem alguma causa) e se, através da manutenção de suas bandeiras, consolidarem alguma vitória em suas reivindicações.