Opinião
O sucesso nas ruas e os rumos a tomar
Depois que a turma (de muitos e muitos milhões) tomou gosto, é natural supor que a movimentação não seja interrompida de repente. Afinal, 20 centavos é algo insignificante frente à grandeza do tsunami que está a varrer as ruas do Brasil. O recuo governamental, apesar de tardio, foi emblemático. Juntos, o governador paulista e o prefeito paulistano, ao anunciarem o cancelamento do aumento de R$ 0,20 no preço das passagens de ônibus, traduziram a perplexidade das duas principais siglas partidárias da atualidade, antagonistas figadais há uma década, unidos e uníssonos no anúncio de que entregavam os pontos: o aumento estava cancelado. Mas as manifestações, conforme já anunciado desde antes, não foram canceladas. Nem mesmo há disposição de férias por parte dos manifestantes em êxtase, fascinados com o próprio sucesso. A partir de então, torna-se mais estridente a pergunta formulada desde antes: O que as multidões eletrizadas e sua ?liderança horizontalizada? pensam em fazer no dia seguinte? Em primeiro lugar, fica evidente que a garotada não imagina um amanhã que não seja a continuidade da pândega cidadã do hoje. Algo como um carpe diem permanente, onde a velha bandeira dos centavos a menos já não serve e, para tal circunstância, vem a calhar a profusão de nobres causas explicitadas em incontáveis cartazes artesanais. Educação, saúde, ética, sustentabilidade, desenvolvimento, emprego, passe livre, maiores salários, menores obrigações, lazer, cultura, energia barata, wireless livre em todas as cidades, ingressos grátis para todos nos jogos da Copa, fim das mordomias em todos os níveis, fim da corrupção, descriminalização das drogas... Que mais? Sem ironia, se identifica, no coração dos manifestantes, o genuíno desejo de mudar o Brasil. E, principalmente, é fundamental reconhecer o esforço da maioria dos líderes de manter o movimento distanciado das pressões partidárias e eleitorais. Não será fácil, mas a luta contra as tentativas de manipulação política é tão essencial quanto o combate que precisa ser feito em relação aos muitos grupos de baderneiros, saqueadores e tumultuadores que se infiltram entre os manifestantes.