Opinião
Dilemas reais de um pa�s renovado
Independente dos rumos que venha a tomar amanhã, o tsunami de protestos brasileiros já fez história como a primeira grande manifestação de amplitude nacional articulada à revelia das lideranças (partidos e/ou organizações civis ou militares). Em sendo a primeira neste formato, é evidente que todos os prognósticos podem e devem ser feitos. Todas as hipóteses são possíveis, inclusive não dar em nada. Mas, sem dúvida, um resultado concreto já é possível ser distinguido dentre as múltiplas questões suscitadas no decorrer desses dias tão agitados: as pressões sociais sobre os brasileiros não podem continuar a ser tratadas como dantes na história deste país. Dentre as inúmeras avaliações feitas por luminares da imprensa mundial sobre essas surpreendentes manifestações, um artigo publicado pelo diário espanhol El País identificou, através do olhar atento de seu correspondente no Rio de Janeiro, na própria ascensão social de milhões de brasileiros a um patamar superior social, o germe da atual erupção política. Os emergentes, a subir degraus em todas as camadas sociais, desde as mais sofridas até a famosa classe média (e para por aí), não apenas gostaram de galgar patamares acima, mas querem mais. No mínimo, exigem a continuidade do processo de ganho. Como aceitar que, uma vez equipado com um cartão de plano de saúde, venha a ser recepcionado por um serviço tão deficitário e superpovoado como o velho SUS do qual já se imaginava livre? Como ser tolerante com um precaríssimo e caro sistema de transporte público? Não há como compreender, por exemplo, que depois de ter finalmente adquirido sua ?cinquentinha?, seja ameaçado com a cobrança de taxas impagáveis, semelhantes às impostas às grandes motos. Não é mais possível tolerar uma educação pública da pior espécie. E tudo mais que se acolhia, humildemente, como sina de sofrimento depositada por mãos divinas sobre os mais pobres, cuja humildade e conformismo eram garantia da fé nos desígnios superiores. Ao patrocinar a enxurrada social ladeira acima, as políticas de inclusão social que marcam o Brasil desde o governo Lula abriram as comportas para uma nova sociedade ? que apenas começa a engatinhar.