Opinião
PANEM ET CIRCENSES, J� N�O BASTA
Conforme descreve Juvenal em suas Sátira X, os romanos antigos criaram uma política que previa o provimento de comida e circo para divertir o povo, com o objetivo de diminuir a insatisfação popular. Colocaram nas arenas disputas sangrentas onde gladiadores se enfrentavam até a morte, quando se distribuía pão gratuitamente para a plateia. Mas o custo dessa política foi enorme, causando elevação de impostos e sufocando a economia do Império. Gigantescos protestos tomaram as ruas do país. Um milhão de pessoas na quinta, justamente quando se abriam os portais das belas e caríssimas arenas modernas. Algo que pareceria impossível: o pão e o circo já não bastaram, não foram suficientes para entorpecer a multidão. As manifestações em sua grande maioria foram ordeiras e repudiaram não só o desperdício com essas arenas (quando se anunciaram esses eventos no Brasil, prometeram que não se usaria dinheiro público nelas), como a falta de serviços públicos minimamente satisfatórios, principalmente na saúde e na educação. Todavia, momentos de extrema violência, de grande depredação dos patrimônios público e privado, aumentaram pelo país, e se existe uma segunda e deletéria mobilização ainda não se sabe. E se há uma semana ainda reconhecíamos indefinidas as causas dessas manifestações, mas lamentávamos os episódios de violência, agora ficou claro: tarifas de ônibus foram apenas o gatilho. Insatisfação e reivindicações populares são muito mais amplas. O grito das ruas, emanado principalmente dos jovens, mas não só deles, mostra claramente que o ?Oásis de desenvolvimento e satisfação? brasileiro, apregoado repetidamente pelo governo é uma fantasia: não existiria melhor momento para gozá-lo, pois somos apaixonados por futebol e se iniciava a Copa das Confederações, onde a seleção canarinho, poderia, enfim, se redimir. As manifestações repudiaram os partidos políticos que tentaram aproveitar-se das mesmas e demonstraram como os eleitos estão distantes dos eleitores. Ali, muitos sentiram saudades da velha e independente UNE. Atônita, em Brasília, Dilma convocou reunião emergencial com os ministros ?mais importantes?? e os outros muitos, os desimportantes, não estariam entre as causas dos protestos? Nas ruas pode estar se construindo um movimento democrático saudável, mostrando que a nossa democracia está viva e alerta. Mas é preciso identificar os desequilibrados, os vândalos, os baderneiros e saqueadores; isolá-los e puni-los rigorosamente, para que o movimento prossiga em busca de objetivos mais consistentes, como barrar a aberrante PEC 37, para a qual, seus defensores, atentos e preocupados, já postergaram a votação. Justas são as reivindicações dessas manifestações: o combate à corrupção; os desvios da política; a inflação; a impunidade; a violência... mas faltam-lhe representantes legitimados para dialogar com as autoridades e cristaliza-se uma preocupante crise de representação política. Já existe um óbito e, para complicar, a Polícia, muito exigida, está tensa e exausta. Mas, se não for pelo clamor das ruas, por quais caminhos se alcançarão avanços reais para a sociedade?