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Opinião

Quem n�o tem do que reclamar?

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Tornou-se uma característica própria das recentes manifestações que infestam o país a profusão das bandeiras reivindicadas. Numa inciativa articulada, espalharam-se por quase todos os locais as ?oficinas de cartazes?, ministradas como forma de aglutinação durante o incontornável tempo de concentração antes das massas irem às ruas. Cada passeata, dia após dia, desta forma, revestia-se da multiplicidade de reivindicações. Uma verdadeira colcha de retalhos donde se sobressaíam, não raro, propostas antagônicas como as esgrimidas por quem defendia e quem atacava a descriminalização do aborto. A ?cura gay? também foi outra questão abordada, no mesmo ato, por cartazes excludentes. Como em qualquer lugar do mundo, o bom humor e a criatividade conferiram toques especialíssimos em meio à profusão de causas esposadas. Além dos aspectos pitorescos, essa multiplicidade de reivindicações aponta para a dificuldade de ser extraído, das fantásticas mobilizações desses dias, um conjunto harmônico de propostas que possa resumir a contento os principais objetivos dos milhões de manifestantes. Igualmente, essa abundância de causas dá uma medida aproximada da enorme variedade e diversidade dos problemas brasileiros que podem ser considerados simultaneamente graves e urgentes. Um dos ?barris de pólvora?, por exemplo, pode ser facilmente identificado na revolta dos proprietários de motos ?cinquentinhas?. Não por acaso, este tensionamento se dá no mesmo foco gerador das primeiras manifestações: o problema dos transportes populares no Brasil. Para fugir da angustiante realidade dos meios coletivos, milhões de brasileiros em processo de ascensão e inclusão social viram nas motos de 50 cilindradas (algumas verdadeiras bicicletas motorizadas) a chance de uma solução autônoma e acessível a seus orçamentos. Para fugir dos superlotados, desconfortáveis e caros transportes coletivos, apostaram suas economias nessas motonetas. E eis que, de repente, as autoridades, olho gordo nesse movimento, descarregaram sobre esses cidadãos taxas e obrigações que simplesmente transformaram o sonho libertário, tipo easy rider, em opressivo pesadelo. Como não se revoltar?

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