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UM RETRATO NA PAREDE

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Éramos muito jovens e nos preparávamos para o vestibular. Nos intervalos das noitadas de estudo da Química, da Física e da Biologia, arranjávamos tempo para conversar sobre política: recordo um militante da vigorosa esquerda,o Marcílio, vindo do Rio de Janeiro para fazer inflamado e contagiante discurso no Colégio Moreira e Silva, onde tínhamos o combativo jornalzinho, comandado pelo Raul e pelo Lécio. No abafado quartinho dos fundos de casa, onde virávamos as noites estudando, abastecidos pelos pastéis de minha mãe, que eram cobertos por fina camada de açúcar, tinha na parede a letra completa de A Marselhesa, no original, como se aquilo fosse um incipiente e mísero grito de guerra contra os militares. No dia 26 de junho de 68, completados 45 anos na quarta-feira passada, o centro do Rio de Janeiro foi ocupado por histórica multidão, naquilo que ficou conhecido como a Passeata dos Cem Mil. À frente, abraçados: Pascoal Carlos Magno, Nelson Motta, Edu Lobo, Chico Buarque, José Celso Martinez, Caetano Veloso, Nana Caymi, Gilberto Gil. Além da ditadura, a fogueira tinha sido acessa pela morte do estudante Edson Luis, 18, no restaurante estudantil Calabouço. À noite, no quartinho, paramos por alguns momentos o capítulo de Química Orgânica e cantamos desajeitados, mas contritos, algumas estrofes de A Marselhesa: ?Allons enfants de la patrie...?. Fizemos nosso estéril protesto e voltamos a estudar. Nossa geração superou a ditadura e alcançou a democracia, que malandramente nos veio com graves e crescentes vícios, proporcionados, inclusive, por muitos daqueles que ao invés de músicas de protesto, politicamente, lideravam as passeatas com promessas de democracia, solidariedade e honestidade. O atual movimento popular que inunda o Brasil, encontrou muitos daqueles que foram às ruas em 68, hoje delas alijados, mas instalados no poder e convivendo muito bem com as gigantescas anomalias e distorções que eles então tanto combateram e agora compactuam e até fomentam. Bandeiras inalienáveis à cidadania, como o combate à corrupção, a ficha limpa na política, o voto aberto no Congresso, a derrota da PEC 37, saúde e educação minimamente dignas e, principalmente, o resgate da vilipendiada autoestima nacional estão em evidência e com possibilidades de melhorias, pela via da pressão popular, e não pelas força e vontade dos agora instalados no poder. Mas nem tudo está perdido. Esqueçamos os artistas: se eles continuarem a nos dar boa música, nos conformaremos. Para os outros e outras, os agora excomungados das ruas e no poder, lhes resta a chance de até em nome de seus aludidos passados de lutas democráticas recuperar a perdida vergonha. Ainda podem escolher como ficará o seu retrato na História. Evitem propostas indecorosamente enganosas, como a importação de médicos estrangeiros e a Constituinte Exclusiva; poupem justificativas indecentes como a desenfreada gastança nos estádios não ser dinheiro público, e promessas implausíveis como a redução de gastos públicos e controle da inflação, com um ministério de 49 pastas, 22 mil cargos comissionados e um marqueteiro comandando a agenda presidencial. Evitem trocar bombas venenosas entre Planalto e Congresso. Recuperem um pouco da compostura pública, por favor! Não nos levem a olhar para o retrato de 1968, como Drummond olhava para o retrato de Itabira na parede e nos obriguem a gritar: ?É apenas um retrato na parede, mas como dói!?.

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