Opinião
Resistir � espionagem, mas sem demagogias
Trata-se de mais um caso do clássico ?Segredo de Polichinelo?. Afinal, quem acredita, de verdade, na privacidade irrestrita e na inviolabilidade dos dados circulantes na internet e/ou na telefonia (celular e/ou fixa)? Reagir com indignação, entretanto, é fundamental para que a coisa não se transforme oficial e abertamente em ?Casa da Mãe Joana?. O governo brasileiro manifestou seu descontentamento com a divulgação das espionagens feitas pelos serviços de informação dos Estados Unidos; na velha e calejada Europa, nem todos os governos se abalaram a ponto de responder e quem o fez primou pela discrição. Do ponto de vista geopolítico, a arte da espionagem é não apenas algo indispensável como uma atividade corriqueira praticada desde há muitos séculos, talvez até mesmo anterior à escrita (as informações boca a ouvido correm com invejável celeridade até nos tempos da web). Os Estados Unidos extrapolaram? Talvez, sim... Talvez, não. Afinal, ser uma superpotência exige, antes de muitas coisas tidas como prioritárias pela vã filosofia, ser uma hiperpotência em termos de inteligência (eufemismo para espionagem). Protestar é preciso, mas sem jamais perder o discernimento que, antes de qualquer coisa, se faz necessário para resguardar suas informações reservadas. Seja do ponto de vista governamental, seja pelo olhar empresarial, seja pelas comezinhas atividades pessoais. De nada adianta apenas se indignar, pois os contemporâneos meios de comunicação e interação multiplicados pela internet e suas redes sociais ? como todos deveriam saber ? escancaram as portas da privacidade, como nunca dantes na história do mundo. Indignar-se é necessário, mas mais impactante será a manifestação de solidariedade aos poucos personagens que ousaram enfrentar essa obviedade monstruosa e espalhar aos quatro ventos provas sobre o que todo mundo (que presta atenção nas coisas em sua volta) já sabia. Desempenhará um papel muito mais significativo fazer um gesto humanitário em direção ao renegado agente da CIA, o hoje caçado Edward Snowden. Mesmo sem chegar à temeridade de dar-lhe asilo, caberia às nações ditas civilizadas, ou em vias de civilizarem-se, emitir nem que fosse uma palavra de consolo. Ou aceitemos, todos, que nos espionem, sem mais eufemismos.