Opinião
FANTASIA DO SABER
O renomado professor Luis Pinto Ferreira, intérprete da Escola de Direito do Recife, em pronunciamento histórico, de comemoração acadêmica, disse com altivez ser a lenda mais bela do que a verdade, por falar mais à imaginação, à fantasia e ao sentimento do povo. As instituições humanas vivem da inspiração dos seus sonhos. O ideal e as convicções se afirmam através das luzes do saber. A nobre vocação de seus representantes valoriza suas conquistas e consolida sua imagem perante à posteridade. ?Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia?. Eis a célebre frase construída pelo velho escritor português Eça de Queirós. Palavras colocadas como subtítulo, de sua obra A Relíquia, tornando-a memorável e universalmente conhecida. A legendária sentença, através dos tempos, vem servindo aos homens na lembrança de suas narrativas e no enredo de seus romances. Os seres humanos precisam definir, com exatidão, os fatos, mas as intuições segredadas pela fantasia amenizam a face adversa das realidades. A vida ensina a todos o poder da tolerância. A aceitação dos acontecimentos, nem sempre previsíveis na visão dos fundamentos de seus projetos. Aqueles que se rebelam contra os fatos, por cultivar princípios rígidos e comportamentos solenes, quase sempre morrem prematuramente, vestidos por uma dignidade exemplar. Os ocupantes do poder superestimam a divulgação da consistência de dados. Os meios de propaganda se esmeram em promover obras inacabadas, de decantar conquistas e metas vitoriosas inexistentes. Os duelos da democracia se tornam, assim, um campo fértil para os rasgos da imaginação e para os apelos indomáveis. O tratadista Hans Kelsen que ergueu os principíos basilares da democracia real, também escreveu a obra A Ilusão da Justiça. Reconhecendo-a como o problema central de toda teoria e prática social. E exaltou como pensamento mais profundo e querer mais sagrado uma solução para o enigma da justiça. As visões da incerteza agitam as diversas áreas do relacionamento humano. Constituindo-se um ingrediente doloroso do jogo das paixões. O brilhante tribuno, advogado Romeiro Neto, argumentava no fervor dos julgamentos: ?a dúvida é uma porta larga por onde passam, confundidos, culpados e inocentes ?.