Opinião
CAETANO VELOSO, ONTEM E HOJE
Dei tratos à imaginação, muito tempo e atenção, para lembrar em que ano assisti a uma apresentação de Caetano Veloso no Canecão, uma famosa casa de espetáculos no Rio de Janeiro. Consegui lembrar. Faz muito tempo mesm. Data de 2004. Acompanhei meu irmão Rui Medeiros (um ano depois ele passava à eternidade) a um show musical em que Caetano apresentava uma obra literária: Verdade Tropical. Que Caetano Veloso é uma das mais expressivas figuras da música popular brasileira, ninguém põe dúvida. O criador de Tropicália tem páginas musicais cantadas e decantadas no país e lá fora. Mas Caetano, escritor, foi uma agradável surpresa. Muito talento e esmerado estilo. Caetano falou de si mesmo, de sua história e da história musical da Bahia, de sua contemporaneidade com uma das fases mais turbulentas da vida política brasileira. Mas no show do Canecão, encontramos um Caetano diferente. De terno, gravata e cabelo engomados. Em nada se parecia com o irreverente cantor que afrontara os tradicionalistas ao longo do tempo inovando na música e no vestuário, nas canções de rebeldia e nas túnicas, saiotes e cuecas. Iniciou o espetáculo cantando peças musicais inteiramente desconhecidas. Seu grande auditório permanecia silencioso. Não havia interação com o público. Faltava o elo de emoção e magnetismo que embala o entusiasmo e a vibração. De repente, aconteceu a guinada. Quando falou de sua prisão, dos meses que passou encarcerado, de sua expulsão do Brasil e do exílio em Londres, onde passou o Natal de 68 numa solitária, úmida e fria, dormindo no cimento. Emoção dos ouvintes. Uma corrente eletrizou a plateia. E a partir daí, ele também mudou totalmente de postura. Arremessou o paletó ao chão e arregaçou as mangas. As músicas fluíram, repertório que o público esperava, cantando em sintonia com um milhar de vozes. Há duas semanas, voltei a assistir ao novo espetáculo de sua turnê no Nordeste. Uma explosão de novos ritmos, temáticas, instrumentos e posturas, que o atualizaram no atual quadro da música popular brasileira. Trazer sua poesia musical em diferentes tons, agregando-se a uma banda jovem ligada ao rock, na guitarra elétrica, contrabaixo e bateria, é uma façanha e um ajustamento aos novos tempos. Caetano elevou o repertório de referência da música popular brasileira na quantidade e qualidade de produção, num processo de renovação, atraindo as novas gerações para sua música. Talento para criar e descobrir novas linguagens, melhorando a relação com o público, na vanguarda dos novos tempos. As letras de algumas de suas músicas são poemas em prosa.