Opinião
Inc�gnitas que v�m das grandes manifesta��es
Em dias de alta incidência de manifestações de rua, cabe registrar logo nas primeiras linhas que este escrito não visa um ato específico de protesto, como o realizado ontem e espalhado pelas principais cidades brasileiras. O objetivo é, ao olhar para o que acontece no mundo, tomando exemplo alhures, provocar alguma reflexão sobre os rumos que as ruas podem tomar. Observemos o que acontece no antiguíssimo e calejado Egito. Desde janeiro de 2011 que os logradouros do Cairo viraram, literalmente, praças de guerra. Gigantescos protestos, concentrados na tornada famosa Praça Tahrir, rapidamente espalhados por todo o antigo país dos faraós, puseram fim ao governo ditatorial, de 30 anos, do general Hosni Mubarak. A onda de protestos, desde seu início até a queda do governo, no dia 11 de fevereiro de 2011, sacudiu o povo egípcio durante 18 dias. Apressadamente, a grande mídia ocidental reforçou o rótulo que havia colado nos protestos na região desde que um jovem tunisiano, ao se autoimolar, provocou uma inesperada sequência de revoltas: ?Primavera árabe?. A ânsia ocidental em batizar um movimento complexo e desconhecido como uma referência libertária é própria do instinto de impor suas próprias ideias às cabeças alheias. A partir da óbvia onda de irrefreáveis manifestações de rua em países exteriores às esferas de influência das potências ocidentais, imaginou-se que o resultado seria o adesismo em massa ao modo de vida do ocidente, ou, mais diretamente, a expressão de um anseio ao modelo americano. Ledo engano. Ignorantes quanto aos interesses dos povos árabes em rebelião, os analistas do lado de cá toparam com resultados opostos às suas previsões. Embora tenham cessado de circular na internet novos dados sobre os povos ?libertados? pelas revoltas na Tunísia, Líbia, Sudão, Bahrein e Iêmen (locais mais badalados, há dois anos, como exemplos da ?primavera árabe?), a confusão no Egito obriga a mídia ocidental a cobrir o inferno em que se transformou o prometido paraíso ?democrático? pós-Mubarak. Nos dias em curso, as multidões enfurecidas seguem fazendo ferver a Praça Tahrir e as ruas mais importantes das cidades egípcias. As mortes já passam das dezenas. O ocidente, indeciso, não sabe o que fazer: critica ou aplaude o golpe contra o ?primeiro presidente eleito? do Egito? E não reconhece uma lição básica, a de que povo na rua nem sempre é sinônimo de ?primavera?. Pode ser inverno glacial...ou verão infernal.