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Opinião

ABISMO QUE CAVASTE COM TEUS P�S

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Num dado momento, pretendeu-se reformular o curso de Medicina. Embora pouco inclinado a reuniões ?de trabalho?, geralmente inócuas, ou ? muito pior ? de cartas marcadas, senti-me impelido a participar. Afinal, era um dos coordenadores de disciplina. Com quase trinta e cinco anos de magistério, permiti-me inferir que já estava meio tarde para começar a utilizar portfólios e outros que tais. Três anos após ter me despedido e aberto caminho para novos talentos, continuo a pensar na medicina como ciência e arte. O fato é que das enjoadas reuniões chegou-se a conclusões geniais. Antes de tudo, pariu-se que o alvo da faculdade seria primordialmente formar cidadãos. Infere-se que Medicina que é bom, o cara pode até não aprender, mas jamais dali sairá um cidadão de segunda classe. Que adiantou nossa ?rebeldia? e falar que a cidadania é um processo que começa intraútero e nunca está completamente construído, ainda que se viva 150 anos? Cidadania é apenas burnida na Academia com o exemplo dos mais antigos. Medicina e cidadania não são excludentes. O que parece fora do lugar é a priorização do abstrato ? muitas vezes carregada por mesquinhas desforras dos professores. Não menos surpreendente foi a criativa ideia de que as faculdades de Medicina devem ter o objetivo formar cidadãos, digo, médicos, para o SUS, ?para as necessidades do SUS?. É o estupro da Academia. Não lembro das vezes em que perguntei aos mentores dessas transformações se eles tinham vivências em tratar pacientes do Sus. Antecipo a resposta: ?Paciente de Sus é bom no papel?. Submissa, a Ufal (não foi a única) ainda cederia às imposições dos companheiros ao deixar-se incluir no rol das federais para vestibular unificado, que tem o Sisu como central de inscrição. A leniência revelar-se-ia particularmente cruel. Não seria exagero afirmar que aluno de AL estudando Medicina na Famed é pé de cobra. Acuada, antipatizada, sem credibilidade, Rousseff, diz-se, treme de medo de novas vaias. A esperança é uma indulgência especial do papa para blindá-la da hipocrisia desses canalhas pequeno-burgueses. Fala-se até em conversão e confissão. Inflação indócil, drogas e corrupção no meio da canela, desemprego... Cuba balançando... E as pessoas na rua... Com o fiasco da constituinte e do plebiscito, é taboa de salvação criar marola em torno de um tema. Dois anos a mais no curso médico é uma polêmica perfeita. Se o projeto passar, não há de que se reclamar. É o abismo que vinhas cavando com os pés.

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