Opinião
A baderna contamina os justos protestos
Não devem passar despercebidos certos aspectos fundamentais das atuais ondas de manifestações que sacodem as ruas brasileiras, especialmente radicalizadas nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Uma característica merece atenções redobradas: a baderna, violenta e organizada. Notadamente, este traço (a organização) deve ser levado em consideração. Não se deve menosprezar esse ponto, pois todos os demais fundamentos positivos do movimento de rua, mobilizando milhões em todo o Brasil, podem ser obnubilados por grupamentos tão minoritários quanto atuantes e agressivos, grupos esses cujos objetivos não se inscrevem dentre as muitas e variadas bandeiras reivindicatórias da população mobilizada. Visões paternalistas, aparentemente ingênuas, tendem a desculpar os vândalos, buscando explicações e justificativas de fundo ?revolucionário? para as ações explicitamente reacionárias, visceralmente autoritárias, perpetradas por essas gangues que parecem crescer e ficar mais virulentas a cada manifestação. No apoio indevido a esses bandidos urbanos, infiltrados no seio do povão em revolta, unem-se teóricos de esquerda com ativista de direita. O ?direito de agredir? passa a ser defendido por teses antagônicas como se fosse algo ?positivo?, apesar de causar ?prejuízos? e, maldosamente, acusam os governos aos quais fazem oposição de serem responsáveis por ?prejuízos maiores?. Agem assim determinadas forças que se opõem a governantes da ?base aliada petista? e outras que se postam contra gestores ?tucanos neoliberais?. Sintomaticamente, as gangues de baderneiros atacam, simultaneamente, aos governos carioca (situacionista, em relação ao governo federal) e paulista (oposicionista ao Planalto). E a pequenez partidária parece só enxergar possíveis efeitos nas próximas eleições contra seus adversários! Nesse ritmo, cada um desviando a vista das agressões aos seus adversários, irão a nocaute todos. Mas a principal vítima será a democracia brasileira, pois, ao invés de novas e sadias forças, estão a emergir das ruas as velhas e doentias tendências autoritárias, fascistoides, baseadas na pura e simples força bruta.